29 de dez de 2003

Eu voltei a escrever no blog e ninguém percebeu

Bom, eu mesmo havia dito que um mero post feito no calor do recém-visto Retorno do Gay não significava uma volta definitiva.

Enfim, sinto que estou pior. Eu queria evitar algum tipo estereotipado de "post reflexivo” sobre um ano que se vai, mas não tem muito remédio. Sério agora, 2002 foi um ano legal, lembro-me d’eu conversando com a Carol e a Roberta sobre comemorar 2002, pois havia sido um ótimo ano. Já 2003 foi um ano zero. Sabe esses anos (ou qualquer outro período de tempo) em que tudo acaba em empate (fazendo referência à uma piada obscura do Charlie Schulz)? Pois então, fui para um emprego melhor, hoje ganho mais do antes e... Acho que só. Essa foi a notícia boa de todo 2003, de resto...

Incrível como a única proposta que havia feito a mim mesmo no fim de 2002 não se cumpriu. Eu venho, ano após ano, diminuindo o número de "resoluções de fim de ano". Esse ano não vou fazer nenhuma, acho que agora estou entendendo. Havia prometido a mim mesmo que 2003 ia ser meu ano físico! Iria começar a praticar kung fu, malhar, cuidar do corpo, ser saudável e, de repente, até parar de fumar. Termino o ano 10 quilos mais gordo e agora, finalmente, eu sou um gordo. Já é impossível olhar para mim e não usar a obesidade como referência. Com isso minha descrição genérica fica cada vez pior: baixinho, gordo, de óculos e dentuço. Realmente só falta eu ficar careca! Eu não fiz kung fu, eu não parei de fumar, eu não me alimentei melhor e inclusive durante o ano eu tive diversas crises de estômago e dores pelo corpo.

Esse foi o ano em que eu me mudei duas vezes, mas não mudei nada. Esse foi o ano em que eu casei. Primeiro eu e carol decidimos morar juntos, é para valer. Então, nos mudamos do Catete para a Tijuca. Casa legal, eu cheguei a falar aqui. Aí, ela teve a idéia de mudar para Vicente de carvalho. Inferno, tiros, baile funk, péssima escolha imobiliária. Ficamos um mês como retirantes, tive que correr com pequenas reformas, correções e cancelamentos de contratos. Tristeza geral na partida. Voltamos para a Tijuca. Praça Aphonso pena, ótimo ponto, imóvel interessante, uma casa velha, cheia de problemas. Além de tudo isso, tenho três cadelas. Umas gracinhas, Eva 00, Maya e Clara. Seria ótimo se eu achasse que o custo benefício de ter animais compensasse. Ah! Também, tenho três gatinhas: Mia Wallace, Isobel e Lídia. Eu tenho? Me pergunto isso sempre.

Roberta se foi, ficamos eu e carol. Com dívidas, uma casa velha, seis animais e o cansaço natural de sete anos de relacionamento. É estranho quando praticamente todas as suas memórias incluem uma mesma pessoa.

Eu estou esgotado. Física e mentalmente. Não agüento mais muita coisa. Estou irritadiço, mal humorado. Estranho que de alguns anos para cá passei a ser conhecido pelo meu mau-humor. Quem me conhece há mais tempo sabe que eu mudei. E como mudei. Não consigo mais desenhar, não consigo mais escrever e estou com uma dificuldade muito grande de criar. Perdi um pouco as rédeas do meu processo de trabalho na empresa e algumas coisas atolaram. Os freelas se empilham, pessoas se entristecem comigo e minha conta bancária é completamente desregulada, ou pelo menos não é regulada como eu queria.

Estou todo errado, minha vida não tem logística nenhuma. Minha roupa não segue um curso de cuidado, meu dinheiro não segue um fluxo correto de entrada e saída, meu tempo é completamente desregrado e mal aproveitado, eu não tenho um computador bom para trabalhar, eu não tenho uma internet boa para trabalhar, eu não tenho nada. Eu sou um cara de 25 anos, que tem um dos melhores salários dentro do meu grupo de amigos e conhecidos e não tenho nada. Eu tenho um contrato de aluguel de uma casa velha, um casamento complicado de administrar, seis bichos que não foram opções minhas, e dívidas que graças a minha assertividade administrativa acabam em fevereiro. Eu não faço dívidas de longo prazo. Aprendi isso com o meu pai.

Eu não consigo mais coordenar o meu raciocínio, meu Palm quebrou e não tenho como consertar, comprei um celular numa jogada que tem um lado bom e um lado ruim mas não tenho como habilitá-lo. É tudo muito estranho. Minha vida se tornou labiríntica, tortuosa, tudo parece estar infinitamente mais difícil do que deveria ser. Algo aconteceu com o meu ponto vista. Bem ou mal eu vi isso acontecer. Por vezes algum eixo meu se deslocava, era claro quando isso acontecia e fácil de consertar. Mas de repente todos os meus eixos se deslocaram e isso fica imperceptível por que se perde a referência. Você simplesmente passa e enxergar diferente e pronto. É como um astronauta que tem aqueles três círculos rodando em diferentes direções e o desafio é realinhá-los.

O que eu quero para 2004? Na verdade a pergunta é: eu quero 2004?

Eu queria nascer de novo, ou voltar no tempo, o que fosse mais fácil.

Carol, eu amo você.

P.S.: Por mais que se pareça isso NÃO é uma nota de suicídio, é só um desabafo, ok? Eu continuo com as minhas rotas de fuga todas muito bem estabelecidas: RPG, desenho animado e história em quadrinho. Eu acho que os suicidas são uns bobos e não tenho o menor respeito por essa prática. A vida muda independente da morte embora a morte até seja um caminho natural de mudança.

26 de dez de 2003

Neste fim de ano...

No dia 25 de Dezembro, esperamos ansiosamente a chegada do bom velhinho:

GANDALF!

Comentário definitivo sobre Senhor dos Anéis

Senhor dos anéis é bom, mas vacila.

Assim como Neil Gaiman (que era o assunto entre eu e um cara, da qual não faço a menor idéia de quem seja, pouco antes do filme começar), eu nunca vou dizer que não gosto, mas não vou tremer e babar histericamente como eu faço quando falo do Allan Moore, do Kurt Vonnegut Jr., do Joy division ou do Invader Zim.

É óbvio que a terceira parte do filme veio com menos impacto do que as outras duas. Os símbolos já eram bem conhecidos e os personagens idem, então a experiência de assistir o Retorno do Rei é a de ficar rindo dos diálogos gays entre os hobbits, olhando para o teto durante os diálogos irrelevantes (assim como a história) entre o resto do pessoal e ficar pulando na cadeira durante as cenas muito fodas para caralho das lutas épicas e grandiosas. É realmente emocionante ver tantos vetores e texturas de CG lutando umas contra as outras

- Tome isso, seu pixel malvado!

No geral, acho que a trilogia do Tolkien fechou bem no cinema. Ninguém mais vai querer gastar tanto para fazer um remake, então com certeza vai ser essa aí a versão definitiva. Por mim, ok!

Como já falei antes aqui - por duas vezes, uma para cada um dos filmes anteriores - eu não gosto tanto assim de Tolkien. Eu gosto de fantasia medieval, de RPG, mas tenho altas restrições quanto a Tolkien. Quais? O de sempre: sexista, xenófobo, narrativa absolutamente sem timing, homossexualismo enrustido e falta de senso de humor. Para justificar isso basta se lembrar que o Tolkien era Inglês e escreveu o Senhor dos Anéis numa tentativa de criar uma saga épica (saga épica é pleonasmo?) para a Inglaterra, uma nação sem Edas. Creio que conseguiu. Deixo claro que essa não é a minha imagem geral da Inglaterra, afinal, tem o Monty Python.

Essa foi a minha impressão geral sobre a obra literária, agora vamos a parte cinematográfica:

O primeiro filme é bom, mas irrita por causa dos travellings intermináveis que servem para mostrar os cenários grandiosos, principalmente as transformações de Isengard.

O segundo é um pouco melhor, não tem os travellings irritantes, mas tem um milhão de cenas do Aragorn, Legolas e Gimli correndo de um lado para o outro com a musiquinha taranam taranam.

O terceiro não tem nada disso, nem travellings, nem corridas, com certeza é o melhor dos três. O terceiro filme tem as melhores batalhas, tem os momentos mais grandiosos, tem os clímax e revelações definitivas, mostra bem o final do desenvolvimento dos personagens e por aí vai. Ainda assim, continua sendo um filme hermético e de difícil entendimento para os não iniciados. Senhor dos Anéis para mim é a prova de que as pessoas não vão mais ao cinema atrás de uma história. Você pode jogar qualquer coisa desde que tenha uns CGs maneiros. Isso não significa que senhor dos anéis seja pobre de história, muito pelo contrário, mas acontece que no cinema essa história fica jogada. Coisas acontecem, entram e sai sem a menor didática de roteiro. Só que ninguém questiona. Os que sabem a história olham e aceitam, afinal é apenas uma adaptação, os que nunca leram simplesmente ignoram e se perguntam quando começa a próxima cena de batalha. Vamos concordar que se criou um pilar de inquestionabilidade sobre Tolkien e Peter Jackson que francamente me irrita.

Outra coisa que me irrita consideravelmente é esse costume que SdA criou de: o filme, o filme estendido e os extras. Coisa de nerd punheteiro isso sim.

– Temos que fazer a cena da 'entrega dos presentes' pois é muito importante, mas ela não entrará no filme. – Alguém deve ter dito.

Veja bem, se não entrou no filme é por que não é necessário para o entendimento da obra! Hei, acabei de lembrar! Eles não se importam com o entendimento da obra! É irrelevante qual cena entra ou deixa de entrar, a única coisa certa é que as batalhas estarão lá! Afinal elas são o nosso maior investimento e são as responsáveis pelos rendimentos monstro do filme. O restante a gente põe no DVD de agrega valor a um segundo item de venda.

De uma forma ou de outra, o Peter Jackson mandou bem em diversos sentidos. Com a jogada “filme / filme estendido” criou um retorno financeiro praticamente dobrado para a franquia. Entendeu o que o público queria ver de Senhor dos Anéis no cinema e o fez. Ele sabia que estava fazendo um filme que não se bastava e soube levar isso, soube contar com a boa vontade - para não dizer falta de apatia - do público em aceitar uma história que sem o background correto não faz tanto sentido, mas tem umas batalhas muito legais.

A minha conclusão é que Senhor dos Anéis é maneiro, mas vacila. Tanto na literatura quanto no cinema. Se as duas mídias me fizeram concluir a mesma coisa então é porque temos a adaptação definitiva da obra em nossas mãos.

Maior filme das história? Maior obra cinematográfica do mundo? Depende, em que sentido? Dinheiro? Uso de Efeitos? Figurino e maquiagem? Pode ser, mas em termos de se bastar como mídia, definitivamente não.

Senhor dos Anéis é um pacote a ser comprado completo: filme, livros e espinhas.