4 de mai de 2005

Meu primeiro emprego

Quanto eu tinha uns 15 anos eu tive o meu primeiro emprego. Era aos sábados e eu era um desses garotos que vendem antecipadamente o jornal de domingo. Coisa que sempre achei meio surreal, tipo uma falha temporal. Há pouco tempo atrás tinha um seriado de ficção baseado nisso. Um cara que sempre recebia o jornal do dia seguinte e com isso tentava impedir as tragédias que podia. Não lembro o nome do seriado, de qualquer forma nunca vi ninguém tentar impedir coisa alguma no domingo em posse de um jornal de sábado. Domingo sempre foi um dia meio morto mesmo.


Eu achava o meu trabalho muito divertido. Eu ficava ali atrás do Carrefour de Vicente de Carvalho, tentando vender para as pessoas que por ali entravam. Era o pior ponto de todos, mas dizia o Roberto (amigão da época, dono da banca e que já não vejo há muito tempo) que eu tirava leite de pedra, e que vendia muito bem naquele ponto. Ficava lá com colete do jornal O DIA, gritando "Olhem que fantástico! O jornal de amanhã HOJE!", criava meus textos e piadas, o que parecia agradar as pessoas. Sempre fui um show man.


A outra parte divertida era pegar os jornais quando o expediente começava. Com Carrefour ainda vazio, eu pegava um carrinho de compras, entupia de jornais e saia em disparada. Correndo, brincando de patinete, adrenalina pura.


Uma vez, quando vinha na carreira, quase chegando ao meu ponto, vi uma moça parada com as compras. Pensei comigo mesmo: "vou fazer que nem o Akira! Vou parar certinho na frente dela para tirar onda e perguntar se ela quer o jornal". Acabei dando uma traulitada sem dó na mulher. O carrinho estava pesado e não consegui frear a tempo.


Tomei um esporro sem tamanho e eu não sabia onde enfiar a cara. Deve ser muito chato você ir cedo fazer compras para evitar tumulto e ser atropelado por um projeto de pivete adolescente com um carrinho apinhado de jornais O GLOBO. Pedi desculpas e ela acabou comprando o jornal. Acho que ela viu que eu estava sinceramente arrependido e constrangido. Hoje eu torço para que a mancha roxa no braço dela não tenha sido grande e nem tenha durado muito.


Era interessante trabalhar de jornaleiro. Eu reaplicava o dinheiro que ganhava na banca, comprando histórias em quadrinho, claro. Durante o início da minha carreira como designer esse "emprego" constou no meu curriculum como "Experiência com venda de impressos".


Se há algo que eu sei fazer, é vender o peixe. E o jornal também.

2 de mai de 2005

A fotopoética de Vicente de Carvalho

E foi assim: Vicente de Carvalho amanheceu sábado com vários e vários rolos de filmes 8mm amontoados, largados, empilhados em várias esquinas. Quando eu digo "vários" imaginem muitos mesmo. Cerca de uns 10 ou 20 rolos por esquina em pelo menos três esquinas.


Eu não sei de onde eles vieram, quem os colocou lá e porquê. Nem apurei isso. Provável que tenha sido apenas uma limpeza, uma faxina, num galpão qualquer. Provavelmente do SESI ou sabe-se Deus da onde.


As crianças se divertiram a valer amarrando uma ponta de filme em suas bicicletas e dando voltas e mais voltas pelos quarteirões, deixando o bairro tomado por fitas plásticas pretas. Observando umas aqui e ali eu vi um abajur, um casal conversando, um carro, uma mulher indo embora (câmera parada filmando as suas costas enquanto ela se afastava). Nada de muito significado, apenas recortes soltos. A cena maior que os englobava tinha muito mais peso.


Noves fora o vandalismo explícito de se jogar todo esse lixo não perecível nas ruas e das crianças que fizeram o favor de espalhar toda essa "produção" pelo bairro, não tem como não ser uma coisa impar, rara e que provavelmente nunca vou ver de novo.


Os filmes estão por lá ainda, pelo menos estavam nesta manhã. Voltaram a se entulhar em bolos e não estão mais espalhados pelas ruas. Em algum momento um grupo de garis vai reclamar muito disso e vai colocá-los num caminhão. Então, será o fim dessa instalação incidental (?). E não é assim mesmo que funciona?

No mesmo dia em que vi isso, vi no metrô um garoto, que não devia ter mais do que 16 ou 17 anos, falando com os pais sobre a estrutura de preconceito mostrada num filme qualquer. Sobre como a negra no filme era, sutilmente, insinuada como uma morta de fome, potencialmente ladra e como o deficiente tinha um final excluído e solitário. Era um garoto comum, daqueles que o preconceito geral que existe em relação à suburbanos, adolescentes e "normais", não deixaria esperar esse tipo de comentário. Mas ele os fazia e os fazia com propriedade.


Reflitam, ok?