2 de mai de 2005

A fotopoética de Vicente de Carvalho

E foi assim: Vicente de Carvalho amanheceu sábado com vários e vários rolos de filmes 8mm amontoados, largados, empilhados em várias esquinas. Quando eu digo "vários" imaginem muitos mesmo. Cerca de uns 10 ou 20 rolos por esquina em pelo menos três esquinas.


Eu não sei de onde eles vieram, quem os colocou lá e porquê. Nem apurei isso. Provável que tenha sido apenas uma limpeza, uma faxina, num galpão qualquer. Provavelmente do SESI ou sabe-se Deus da onde.


As crianças se divertiram a valer amarrando uma ponta de filme em suas bicicletas e dando voltas e mais voltas pelos quarteirões, deixando o bairro tomado por fitas plásticas pretas. Observando umas aqui e ali eu vi um abajur, um casal conversando, um carro, uma mulher indo embora (câmera parada filmando as suas costas enquanto ela se afastava). Nada de muito significado, apenas recortes soltos. A cena maior que os englobava tinha muito mais peso.


Noves fora o vandalismo explícito de se jogar todo esse lixo não perecível nas ruas e das crianças que fizeram o favor de espalhar toda essa "produção" pelo bairro, não tem como não ser uma coisa impar, rara e que provavelmente nunca vou ver de novo.


Os filmes estão por lá ainda, pelo menos estavam nesta manhã. Voltaram a se entulhar em bolos e não estão mais espalhados pelas ruas. Em algum momento um grupo de garis vai reclamar muito disso e vai colocá-los num caminhão. Então, será o fim dessa instalação incidental (?). E não é assim mesmo que funciona?

No mesmo dia em que vi isso, vi no metrô um garoto, que não devia ter mais do que 16 ou 17 anos, falando com os pais sobre a estrutura de preconceito mostrada num filme qualquer. Sobre como a negra no filme era, sutilmente, insinuada como uma morta de fome, potencialmente ladra e como o deficiente tinha um final excluído e solitário. Era um garoto comum, daqueles que o preconceito geral que existe em relação à suburbanos, adolescentes e "normais", não deixaria esperar esse tipo de comentário. Mas ele os fazia e os fazia com propriedade.


Reflitam, ok?

3 comentários:

Anônimo disse...

Ah, vc viu também. Não parei para ver o que tinha nos filmes, mas o efeito era realmente surreal.

Seu irmão.

Anônimo disse...

Afinal, você aprendeu a andar de bike? Li um post bem antigo e fiquei na maior curiosidade pra saber. Diz que sim, plis!!!! Claro que eu também não sei e, claro, que eu acho que isso vai mudar a minha vida. Abraço. Arthur
meuporto@hotmail.com

Anônimo disse...

Bom, essa foi a ultima coisa que vc disse quando eu acessei. Encontrei seu blog quando estava procurando alguma coisa sobre Vertigo. Vc disse alguma coisa em Fevereiro de 2002, eu acho. Resolvi dizer alguma coisa só pra não deixar passar em branco a visita. Valeu!