28 de jul de 2005

Novamente, reflexões

Escrevi esse texto logo que entrei aqui na Halliburton.


"Elas são inevitáveis e confrontam fortemente todo o meu esforço consciente para não tê-las. Hoje, com meus 27 anos, a vida me força a olhá-la de frente, sem peneiras. Vem na forma de sonhos, de delírios e outras formas ainda mais criativas e surpreendentes. A vida, ou Deus, ou seja lá o nome que você queira dar, é imensamente criativa.

Muitas coisas não feitas, outras tantas mal feitas, casamento acabado, contatos, trabalhos e amizades perdidas, tudo está lá. Passado um longo e negro período de depressão e outras síndromes modernas, sobra apenas uma certa melancolia.

O cabelo já não é mais o mesmo e uma quantidade relevante dele se vê mais no ralo do que no topo da cabeça. A saúde já não é algo natural, inabalável, já exige uma certa vigilância. A tosse e o pigarro, cada vez mais constantes, refletem o outrora saboroso cigarro.

As formas já são mais arredondadas. Dizem que o casamento faz isso com um homem e, creio, eu cumpri bem essa parte do acordo. A ânsia por uma academia, uma atividade ou qualquer coisa assim já transcende a mera vontade jovem de gastar a energia acumulada, ou a de praticar peripécias e piruetas para se assimilar aos heróis preferidos de quadrinhos. Hoje, tudo isso soa muito mais como insegurança, insatisfação plástica e preocupação com a saúde, coisas bem características de uma tal crise que, me mentiram, chegaria apenas para lá dos 40 anos, quando eu colocaria um brinco e deixaria o cabelo crescer. Droga! Isso eu já fiz. A merda de ser precoce.

Irmão e muitos amigos chegando aos 30, eu a poucos anos de lá, ex-mulher já passando disso. Ex-namoradas com filhos e casadas há anos. Amigos casados, amigos separados, amigos se mudando para fora do país. Amigos falindo, amigos crescendo e eu me reconstruindo.

Uma boa chance de trabalho surge e é impossível não ser tocado de uma certa alegria, de sentir as coisas acontecendo. Por outro lado, fica sempre uma voz no fundo da cabeça lembrando que você está atrasado, que não faz mais que a obrigação.

Meus brinquedos, uns novos e outros velhos e conservados por minha obsessão, alguns dos quadrinhos que restaram, alguns dos livros, vinis, cds, arquivos de computador. Todos eles parecem olhar para mim com certo ar de saudade, eu retorno o olhar com uma promessa muda de retorno. Retorno talvez com uma sonhada aposentadoria, não importa o quão distante esteja, é a última chance de voltar a ser criança. Porém, uma criança ainda melhor, com mais prática, sustentabilidade e uma idéia um pouco menos vaga do que eu gosto ou não.


Tudo isso me remete a uma única imagem que me persegue há anos a fio. Desde antes de cursar o segundo grau, que já até mudou de nome. Um palhaço triste, cuja a maquiagem força o sorriso bobo. Cada dia mais cínico, um certo mal humor seletivo, que escolhe os lugares mais errados para aparecer. O bom humor chavão, as piadas, as tiradas infames, esta é a forma como eu sei Ser, não saberia Ser de outro modo, juro que já tentei. É bom sentir o aplauso, o reconhecimento através da simpatia dos amigos, da vontade que as pessoas manifestam de querer estar comigo, de fazer questão da minha presença. Mas depois do show, eu volto para casa, muitas vezes com dinheiro emprestado ou com o já separado que ficou seco na carteira a noite toda, tiro a maquiagem, a peruca, as calças balão e choro. Culpa minha, que raramente me abro de verdade e conto com pessoas que eu sei que poderia contar.


Uma política natural de não querer ser lembrado como "amigo chato reclamão" e sim como "cara gente boa e bem humorado" me tornou um pouco inumano, eu acho, meio personagem às vezes. Desculpe a todos que adorariam ser mais amigos meus e realmente me ajudar, mas eu só consigo chorar sozinho.

É complicado formatar esse texto, estou me reescrevendo pela enésima vez e, claro, sempre é confuso. Eu sou dotado de um otimismo natural em relação ao futuro, com o tempo ele passou a ser mais subjetivo. Hoje meu futuro não é mais materializado como era antes, eu não sei mais o que vai acontecer, embora eu saiba que está sob meu controle. Sei apenas que "eu vou estar bem", pois por pior que eu esteja esse otimismo já sublimado ainda estará lá. Já faz parte de mim.


É uma certa pressão no peito, uma certa solidão incurável, em grande parte a imobilidade financeira causa isso. Ganho dinheiro e pago contas, dívidas, resgato compromissos, então lá vou eu tentar ganhar mais dinheiro, tentando consertar uma vida completamente fora dos eixos. Acho que eu não sou muito bom nisso de administração pessoal, mas é tudo culpa da minha incapacidade de dizer não para quem eu gosto.


Espero em breve, fechar esse círculo. Dormir bem com as dívidas pagas, dormir mais amigo do espelho, dormir pensando em alguém que eu sei que está pensando em mim. Tomara que ao chegar lá eu leia esse texto e sinta vergonha de mim mesmo, que eu me sacaneie, que eu faça piada de mim mesmo nos botecos. Tomara que eu não mais me reconheça aqui, ou reconheça apenas o que deve ser reconhecido.


Me conheço. Mesmo que eu ainda esteja neste texto daqui a anos, ainda assim farei piadas sobre mim mesmo. No fundo, sinto que é para isso que eu sirvo.


Pausa para pensar mais e trabalhar, depois eu volto."


Só o que mudou de lá para cá é que eu ando um pouco menos duro de grana agora e já tenho alguém para pensar e "ser pensado". Essa pessoa inclusive gosta das minha formas arredondadas.

Ainda assim tem muito de mim nesse texto ainda, embora as coisas tenham melhorado e eu tenha andado até feliz. Que isso faça todas as pessoas que eu amo felizes também.

Um comentário:

Crude Buster disse...

Então foi de você que eu peguei essa melancolia que tava me assaltando esses dias? Bom, como ela passou, acho que o mister deve estar melhor também. Mantenha seus pensamentos saudáveis, faça um bom saneamento mental e tudo o mais virá naturalmente com as boas vibrações de tempos melhores. wert. como li numa camisa outro dia, o céu não é o limite, o chào é.