21 de nov de 2006

Show do New Order e o fim de um Ciclo

Há mais ou menos 16 anos eu ouvia Joy Division pela primeira vez.

Óbvio que eu já gostava de ouvir música. Quando criança o filme Labirinto me apresentou David Bowie e, além disso, junto com a patota, já ouvia Iron Maiden, Megadeath, Guns 'n Roses e afins. Era aquela coisa difusa pré-adolescente. Eu ouvia funk na raiz do morro e já começava a sentir dificuldade de ouvir o que se tocava na rádio. Havia todo um instinto de querer ouvir outra coisa. Sabia lá Deus o que.

Então o CD se tornou um item comum. Era mais fácil encontrar CDs vendendo e o preço já não era tão proibitivo. Começava a época em que as pessoas trocavam seus vinis por CDs. Nesse momento um amigo estava vendendo uns vinis dele, pois as versões em CD estavam para chegar. Menino curioso de música que era fui ver o que estava disponível. Num primeiro momento ele me ofereceu um disco do Dangerous Toys. Afinal, eu gostava de Hard Rock. Cheguei a casa, coloquei o vinil na vitrola e ouvi pacientemente. Eu tinha uma forma de tomar nota de tudo que eu ouvia. Tipo uma tabelinha pré-excell, onde eu dava nota para vocal, instrumentos, riffs, viradas de bateria e afins. Lado A e lado B não me disseram nada. Nota baixa na tabelinha Romulo. Voltei à casa deste amigo e devolvi o vinil. A pergunta casual "o que mais você tem por aí?" resultou em "Tem o Substance do Joy Division, comprei o CD hoje, não sei se você vai gostar". A capa era cinza, com letras em verde, minimalista. Eu não estava acostumado a isso e nem sabia o que era Design na época. Achei, no mínimo, misterioso.

- É tipo o que? - Aquela pergunta reducionista que até hoje eu faço, só que com um pouco mais de critério.

- Tem uma pegada punk, mas a onda é mais melancólica.

- Punk? Legal, eu gosto de Ramones.

- Eu odeio Ramones, não tem nada a ver.

Como assim era Punk e não tinha a ver com Ramones? Tinha algo errado, levei para conferir. Ouvi o lado A e o lado B. Depois o lado A e o lado B novamente. Olhei as minhas anotações e elas continuavam em branco. Eu não sabia o que dizer sobre aquilo. Comprei.

Não foi nenhum momento mágico misterioso. Eu não fiquei bolado ou encantado. Não me disse nada em especial e nem tocou meu coração. Eu só achei muito maneiro. Tinha um ritmo interessante, era bem grave, fiz algumas associações com os quadrinhos que eu lia na época (Leaders of Men foi eleita a trilha sonora oficial de Ranxerox, não me pergunte por que) e isso me bastava.

O tempo passou. A patota também curtia e foram várias noites jogando RPG, rolando dados e virando o disco na vitrola infinitamente. Por reflexo aquilo foi se entranhando em nossas vidas, outros álbuns foram comprados, camisas foram feitas, adquiridas e usadas. Anos mais tarde a Box Heart and Soul foi lançada e todo mundo deu um jeito de comprar uma. Eu roubei a minha da minha ex-mulher, na cara de pau. Ela ganhou de um cara de Recife que a conheceu na Internet e era apaixonado por ela. Sei que ela gostava, mas foi maior do que eu. Naturalmente todos aprendemos todas as composições, decoramos todas as letras. Tocamos algumas músicas nas pontuais situações em que formávamos algo como uma "banda".

Sendo revisionista, do ponto em que eu ouvi Joy Division pela primeira vez até hoje, tudo parece história. Descobri uma infinidade de outras bandas, mas agreguei poucas na galeria das favoritas. Os amigos dessa época fizeram a primeira festa revival anos 80 do Brasil. Era em um clube da Vila Kosmo (Zona Norte do Rio) e se chamava Factoring (uma certa homenagem a Factory, selo que lançou o Joy Division e outros mais). Alguns muitos anos mais tarde surgiriam a Autobahn, a Ploc, a Trash e outras mais. Essas ganharam fama, mas nunca o pioneirismo. A Factoring abria ao som de Blue Monday do New Order, que ouvíamos cientes de ser o pós Joy Division e com muito respeito a isso. Entre idas e vindas de sons, modas, bandas, estilos e afins, de uma forma ou de outra Joy Division estava lá. Junto com outras bandas, sejamos justos, mas hoje percebo que tinha algo de diferente. Pelo menos para mim.

Eu tenho uma "tiuria" (uma gíria particular para teorias sem sentido) que explica a idéia de "Start Band". O primeiro axioma da tiuria diz que em relação à música existem apenas dois tipos de pessoa: as que se importam com música e as que não se importam. Não quer dizer que o segundo grupo não ouça música, este simplesmente não se liga tanto assim com ela. No primeiro grupo existe um divisor de águas quando o sujeito percebe que música é algo a ser "percebido" com mais calma. Esse divisor normalmente é uma banda que, quando ouvida pela primeira vez, liga uma chave no cérebro que inicia o processo de querer ouvir cada vez mais música.

Uma vez eu conversava com um grande amigo meu sobre música. Falávamos sobre rock britânico e ele defendia o Oasis com unhas e dentes. Eu tentava explicar que a banda em questão era só um subproduto metido a besta de muitas outras coisas melhores que a Inglaterra tinha a oferecer. Ele refutava meus pontos afirmando a genialidade dos caras e num momento ele disse "foi a primeira vez que eu percebi as duas guitarras e vi como elas trabalhavam juntas, antes de Oasis eu ouvia Green Day". Eu não tinha mais o que dizer. Oasis está para ele como Joy Division está para mim. São nossas "Start Bands", as responsáveis por nos "despertar" (coisa brega) para a música num sentido bem mais amplo.

Semana passada foi o show do New Order no Rio de Janeiro. Um preço proibitivo, uma casa recém construída e já caindo aos pedaços e qualidade de som muito duvidosa. Assim foi o show. Porém, nos primeiros acordes de Transmission (que na verdade é uma mesma nota tocada várias vezes) eu chorei. Chorei bastante até. Quantas vezes eu já ouvira aquilo em 16 anos? Quantas vezes eu já "dancei para o rádio"? Não faço a menor idéia, mas sei que as pequenas sensações que essa música me passou ao longo do tempo deram as mãos e caíram na minha cabeça de uma vez só. Eu me reconheci. Tipo um espelho lacaniano tardio, lá estava um eu simbólico. Ou um dos, vá saber.

De vários momentos da noite eu separei apenas esse da choradeira. Mas que fique claro que cada momento do show trouxe uma sensação diferente, uma memória diferente e por aí vai. Não vou perder tempo enumerando o set list, fazendo considerações sobre a diferença entre a voz do Ian Curtis e do Barney Summers. Já tem muita gente falando disso por aí. Como eu disse acima, a relação de uma pessoa com a sua "start band" não é racional.

Eu não faço exatamente o tipo "fã". Não fico lendo sobre uma banda, não coleciono itens, não corro atrás de autógrafos, não fico horas destilando conhecimentos específicos e raros sobre música e minha música favorita não é a terceira do lado B. Eu sei uma coisa ou outra sobre o Joy Division e o New Order apenas por que eles estão na minha vida há muito tempo. Pouco a pouco você guarda informação naturalmente. Talvez por isso eu tenha tido dificuldade de reconhecer que o show me impressionou tanto. Alguns dias depois eu entendi que ver ao vivo uma das trilhas sonoras da minha vida serviu para fechar um ciclo, um segundo divisor de águas. Não que eu vá parar de ouvir ou gostar de Joy Division ou New Order, muito pelo contrário. Hoje reconheço melhor o valor que essas bandas têm na minha vida. O show serviu para eu reconhecer uma série de sentimentos que eu acumulei ao longo desses 16 anos de "amadurecimento" e finalmente deixá-los para trás. Talvez no próprio choro.

Não me tornei uma pessoa melhor. Apenas um pouco mais seguro das coisas que eu quero e menos arrependido das opções que tomei na vida. Tudo foi devidamente entendido em seu contexto de passado e colocado em seu lugar na estante. Foi um processo longo para digerir certas coisas.

Agora estou pronto para dançar ainda mais para o rádio.