4 de dez de 2007

Ação Social da Blogosfera RJ

Como começou
O cidadão digital GraveHeart lançou a idéia no Twitter e no seu Blog. Animado pelas possibilidades de mobilização que a rede humana formada pelos blogs tem, ele propôs que blogueiros iniciassem movimentos sociais em suas cidades. O Natal está chegando, uma ótima hora para despertar o cidadão que mora em você.

Como funciona
Muita gente duvida da força e até mesmo da existência da "blogosfera". Eu inclusive. É um conceito difuso que parece mais um hype de pertencimento do que algo que realmente tenha valor. Esta é a hora da blogosfera provar que tem potencial. A ação não é de blogueiros. É de blogueiros, twitteiros, leitores e todo mundo. Quem lê também está na blogosfera, assim como o consumidor é parte do mercado. Se a blogosfera tem alguma força, esta é a força de agregar e mobilizar pessoas dentro e fora da rede dos blogs. Replique essa idéia, convide, faça campanha e, principalmente, compareça. Esse post vai ser atualizado na medida em que os planos mudem e ganhem maior solidez e adesão.

Onde Vai ser
Uma instituição precisava ser escolhida para formar uma primeira etapa. Devido à necessidade de uma mobilização rápida, tomei a liberdade de indicar uma. Essa indicação não é despropositada, acredito ser importante que algum dos participantes conheça e recomende pessoalmente um lugar. No caso eu conheço o Instituto Imaculada, conheço uma pessoa cuja a família já se dedica a instituição há vários anos e atestam a seriedade do trabalho. Segue o serviço:

Instituto Imaculada
Endereço: Av. Cidade de Campos, nº 910 - Trindade - São Gonçalo - RJ
Tel: (21) 2701 2201 - FAX: 3719 2764
e.mail: institutoimaculada@bol.com.br
institutoimaculada@uol.com.br
O e.mail foi trocado a pedido da instituição.
Veja aqui algumas fotos das crianças

Não pretendo com isso fechar a possibilidade da ação social da blogosfera carioca ocorrer em outros lugares. Viso apenas ganhar o tempo da discussão do "aonde", sinalizando um lugar sério. Incentivo a criação de outros grupos, para outros lugares sob a mesma idéia, além de convidar todos a se juntarem a nós.

Como chegar
De Carro (Itinerário fornecido pela instituição)

1- Ao descer da Ponte, pegue a pista da esquerda para a BR- 101
(Niterói - Manilha).

2- Siga direto pela Rodovia e ao passarem pelo shoping São Gonçalo (Grande shoping à direita), ande mais ou menos 4 km e saia da pista pela direita na saída com a placa “ Itaúna-Alcântara- Mavicle”.

3- Siga para a direita (na Rua Vicente de lima Cleto) ande mais ou menos 2 km e quando passar por uma Igreja Universal (que estará a esquerda) dobre na próxima rua a esquerda (Rua Ventura Pinto, que se liga a Av. São Paulo), ande mais ou menos 1 km e você chegará a praça da Trindade.

4- Contorne a praça (180 graus) e continue na Av. São Paulo; siga direto e dobre na quarta rua à esquerda (Rua Macaé), depois dobre na primeira direita (Av. Cidade de Campos), o orfanato fica na próxima esquina. Rua Cidade de Campos, esquina com Rua Cabo Frio e com Rua Miracema. Seja Bem-vindo ao Instituto Imaculada!

De ônibus
No Terminal Norte de Niterói, pegar o 403 da RIO ITA.
Descer na parada após o Colégio Lauro Correa.

Google Maps

O que é o Instituto Imaculada Conceição
Em conversa telefônica com José Eduardo da M. Ribeiro, um dos responsáveis pela instituição, levantei rapidamente um perfil do projeto. Esse comentário não tem a intenção de substituir o conteúdo oficial publicado no site.

O Instituto Imaculada Conceição é um internato, que recebe meninos entre 7 e 12 anos de idade e os mantém, se necessário, até os 18 anos. Todos esses meninos chegam a Instituição oficialmente através de agentes legais do Estado e estão em processos de adoção. Atualmente, a casa cuida de 31 crianças que recebem educação, alimentação, abrigo e carinho no Instituto. Além dessas crianças, a casa conta com dois agregados, que atingiram a maioridade sem concluir a adoção e agora colaboram com a instituição.

O Instituto conta hoje com 3 computadores em lugares diferentes e apenas um disponível para uso dos garotos. O Eduardo adorou quando eu disse que somos, na maioria, "gente de internet" e está ansioso para trocar idéias com a gente.

Quando vai ser
Minha intenção, e como tal espero a concordância dos que queiram participar, é fazer um trabalho contínuo. Porém, um dia inaugural precisa ser marcado para iniciar a mobilização. Segue então uma proposta:

Dia 8 de Dezembro de 2007 - Sábado
Dia 15 de Dezembro de 2007
Sábado


Horários
9h Concentração na estação das barcas em Niterói
9:30h Saída PONTUAL da estação das barcas
10:00h Hora aproximada da chegada na Instituição
Esse horário de 10:00h foi sugerido pela própria administração da Instituição. Você pode se encontrar com a gente as 9h, ou ir direto e estar por lá na hora correta.


13h Concentração na estação das barcas em Niterói
13:30h Saída PONTUAL do Terminal Norte.
14:00h Hora aproximada da chegada na Instituição


Neste dia haverá uma comemoração no Instituto Imaculada e poderíamos participar. Esse dia inaugural serve para conhecermos todos de perto o lugar e onde podemos ajudar. Esta data não vai mudar novamente, a ação será feita antes do natal deste ano e quem não puder comparecer neste dia inaugural não precisa se preocupar. O trabalho vai ser contínuo e durará muito mais que apenas um sábado.

O que vai ser
As idéias não param de aparecer.

Garradini sugere oficinas de capacitação, de forma a preparar as crianças e funcionários a entender como se usa a internet de uma forma saudável e como aproveitar as oportunidades de crescimento que ela oferece.

Criação de um site/blog com conteúdo gerado pelas crianças. Usando todas as táticas de SEO e monetização. Dessa forma, o site, além de ferramenta de comunicação, será uma ferramenta de captação de recursos para a instituição. Captaremos serviços de hospedagem que dêem apoio a iniciativa em troca da sua imagem vinculada a uma ação social.

Captação de brinquedos, roupas, alimentos e outras necessidades que venhamos a conhecer na Instituição.

Por fim, num primeiro momento, o que vai ser é a presença. Carinho, sorriso, papo e companhia é o melhor primeiro presente que você pode dar a uma criança.

Há uma lista de demandas da Instituição que me foi enviada para a Maffalda nos comentários desse post. Você pode usá-la para guiar a ação que você achar bacana. Porém, proponho que nosso primeiro encontro com o Instituto, já conte com uma pequena contribuição física de ESCOVAS DE DENTE. Vamos escolher um modelo e vamos ratear o custo de 30 escovas de dente, sendo 15 infantis e 15 adultas. É simples, é barato e faz toda a diferença. Mais detalhes sobre como quando e onde em breve.

Conseguimos a doação de 40 kits de higiene da Sanifill, com escovas de dente infantil e adulto. Nós da Ação Social agradecemos imensamente à empresa em nome da gurizada da Imaculada Conceição e pedimos para que os amigos blogueiros divulguem esse agradecimento.

Quem está nessa?
Romulo Marques - Opiumseed
Wallace Garradini
Maffalda
Paulo Coimbra - Ph
Nick Ellis
Diogo Araujo - 1972
Caribé - Flash Brasil
Veridiana - Geek Chic
E mais um monte de gente que fica difícil de acompanhar!

Blog Reactions

Agradecemos a todos que anunciaram a campanha em seus blogs, fazendo a idéia correr. Agora esperamos a presença de todos lá! O projeto da #AçãoSocialRJ é contínuo e presencial, participe!

30 de nov de 2007

War in Rio é Arte

O que mais me impressiona no War in Rio não é o jogo em si, mas a forma com um erro de análise sobre o assunto vem sendo repetido. Vemos nos comentários dos leitores, dos jornalistas e das autoridades falácias como “Isso vai vender muito!”, “o cara vai ficar rico!”, “o cara só quer se auto promover”, que são acusações e adulações típicas de quem tem uma visão rasa sobre o assunto. Colabora com isso títulos de matérias completamente sempre propósito ou verdade como "Designer lança versão de War", usando uma construção que simula um lançamento de um produto real.

War in Rio dificilmente vai ser vendido algum dia e nem foi criado com esse propósito. Lembro de ter visto uma entrevista do site do Globo com o designer Fábio Lopez que começava com a pergunta “se não foi para vender por que você fez?”. A resposta do criador do jogo foi boa, mas não representou o espanto que uma pergunta como essa deveria causar. O que ela significa? Que todo e qualquer movimento na vida de uma pessoa deve ser uma busca por dinheiro? Repare que é essa a visão que tanto a turma do pró, quanto a do contra tem do jogo. War in Rio não é e nem pode ser um produto de prateleira, ele é tanto uma paródia da violência vivida no Rio de Janeiro quanto do jogo da GROW que, garanto, não vai cogitar licenciar a idéia.

Pensar nisso confunde a cabeça das pessoas e elas acabam, sem querer, repetindo a pergunta que tanto critico. Se War in Rio não é um produto, então é o que? O próprio criador do jogo respondeu essa pergunta em diferentes níveis, de diversas formas, mas ninguém entendeu ainda. Ele criou o jogo para jogar com os amigos e, achando sua idéia interessante (e claramente o é), resolveu colocar uma parte dela na internet junto a intenção de protesto. Aparentemente, essa simplicidade escapa as pessoas e às autoridades acaba representando um transtorno: como uma coisa tão simples pode fazer tanto barulho? A resposta é igualmente simples e já foi dada. Em algum comentário, em alguma das muitas matérias que surgiram sobre o assunto, um (raro) leitor iluminado falou: “War in Rio é arte e deveria ser exposto numa galeria para apreciação pública”. Achar que isso é tolice é um entendimento parcial do que é arte e, possivelmente, acreditar que não se pode produzir arte usando Design, ou então que arte tem que surgir de mentes torturadas e reclusas, ora indecifráveis, ora engajadas com grandes propósitos, ou, por fim, acreditar que arte e produto são categorias excludentes, de forma que nunca haverá algo de arte num produto ou um pouco de produto na arte. Poucas coisas podem ser mais inocentes do que isso. Prova disso é que a potência de War in Rio é ser um pouco produto, se tivesse ido direto para uma galeria e sempre tivesse se arrogado arte, ninguém daria atenção.

Espero não estar frustrando nenhum dos possíveis (muitos) compradores de War in Rio. Espero mais ainda que, frente a essa “triste verdade”, os consumidores não percam o interesse no objeto e passem a entendê-lo como mensagem e não algo a se obter. A viabilidade que espero para War in Rio é a distribuição de arquivos digitais para impressão, de forma que bastará uma impressora e alguma dedicação para se materializar uma idéia que tanto incomoda. Quantas idéias que incomodam têm essa chance? Nem vou mencionar a questão de War in Rio ser uma “piada de mau gosto”, pois sobre isso não há a menor dúvida: obviamente é uma piada de mau gosto, dessas que levam multidões à gargalhadas nervosas que estouram toda vez que se apertam grandes feridas.

2 de nov de 2007

Lifecasting: o entretenimento do futuro

O entretenimento do "futuro" vai ser o lifecasting.

Esse conceito já existe e está ganhando peso e consistência. Lifecasting é o que, timidamente, o Twitter pode oferecer. Com o aumento das tecnologias móveis de interação social e do volume de informação na rede, o público vai consumir público.

A internet não é mais um universo paralelo, está se tornando o todo informacional que nos cerca. Com esse volume de informação, o maior valor do que será vendido não será o conteúdo, mas filtros de conteúdo. Ninguém vai ter tempo de encontrar a informação que o entretem e vai delegar essa tarefa a outra pessoa. Vamos pagar para acompanhar a vida de quem estiver disposto a compartilha-la. Vamos comprar olhares.

O lifecaster será uma pessoa conectada. Que ao andar pela rua vai compartilhar videos, fotos, audio, texto, hiperlink do que acha interessante, divertido ou pertinente. Vamos acompanhar em tempo real o lifecaster e vamos pagar por isso espontaneamente, no modelo "in rainbows". Vamos sustentar de boa fé pessoas que consideramos interessantes e que nos oferecem um recorte diferenciado do mundo. A monetização definitiva.

Todos serão Big Brothers no sentido real da palavra: observadores. Todos serão Big Brothers no sentido popular que o termo ganhou: observados. O hype moverá os consumidores de lifecasters de um lado para o outro, engordando as contas daqueles que conquistarem o público por alguns instantes. A cauda longa sustentará os lifecasters que tenham um perfil melhor definido. Comunidades se organizarão em torno de pessoas que se organizarão em comunidades. Lifecasters terão dúvidas existenciais e identitárias e vão ser bem pagos para expor suas divagações sobre a libertada e o sujeito.

Celebridades assinarão contratos de lifecasting e vão brigar no mercado junto com pessoas que não tem o apoio de nenhuma grande rede de comunicação. Lifecasters serão chamados para eventos, serão VIPs, receberão produtos gratuitamente. Lifecasters serão sondados por grandes redes de comunicação, propostas milionárias serão oferecidas para merchandising. Topar o pacto de fausto será um risco. Merchandising Paranóia: deixe seu público perceber que você é um anunciante e perca-o.

Um designer que ande pelas ruas de Paris fotografando, filmando, comentando, podcastiando e pensando a moda, as tendências, os delírios e afins será um lifecaster.

Nerds que jogam boas aventuras de RPG vão transmiti-las com apoio de ferramentas que suportem uma interface tridimensional, criando animações cinemáticas em tempo real como seriados de TV.

Pessoas viajarão o mundo todo com os recursos de seu lifecasting. Serão turistas profissionais, agraciados pela sua capacidade de mostrar o que é de interesse de um determinado grupo. Seja turismo antropológico, culinário, sexual ou artístico.

Prostitutas vão ser lifecasters pornôs, assim como garotos de programa, gigolôs ou simplesmente jovens de vida sexual liberada. Todos serão astros pornôs, compartilhando o lucro de lifecastings conjuntos. Softwares administrarão isso.

Desenvolvedores vão colocar todo o processo de pensar, analisar e programar na rede em tempo real e receberam dinheiro por abrirem a mente para outros programadores.

Lifecasters apoiarão e trairão uns aos outros, formar-se-a uma rede de casters e a própria luta entre eles será lifecasted. Você nunca vai saber se está no programa de outra pessoa, apenas quando cair dinheiro na sua conta pay pal devido ao share de sua imagem. Você vai ter o poder de se "desabilitar", mas poucos vão fazê-lo.

Tudo isso já começou. Seja interessante agora.

Esta foi minha contribuição para uma discussão muito boa sobre privacidade na comunidade de cibercultura.

7 de out de 2007

Mas afinal, de onde é a Fernanda?

Hoje tomei contato com esse texto interessante e engraçadinho:


Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida.

E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.

O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


A primeira coisa a pensar é que as coisas são sempre novidade para alguém, pois mais abaixo vejo que esse texto tem pelo menos 2 anos. Frente a isso, lá vou eu tentar encontrar a sagrada fonte. Nas primeiras tacadas, vejo esse texto com seguinte apontamento:


Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco - (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.


Vejo essa chamada replicada diversas vezes na maioria dos blogs que compartilharam essa redação. Se volume fosse o legitimador da verdade, esta seria incontestável. Porém, a propaganda contra os blogs adoraria falar - e com muita razão até - de macacos usando copiar e colar como os grandes responsáveis pelo volume de desinformação que circula por aí.

Sendo um pouco insistente na pesquisa, acaba surgindo um nome: Fernanda Braga da Cruz. Cruzando as duas referências (o texto e a suposta autora) encontramos uma série de blogs e sites de Portugal que replicaram esse texto, só que com um apontamento um pouco diferente:


Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.


Porém, fora essa referência, o google nada mais trás sobre a Fernanda, de forma que só uma investigação de verdade (e não apenas um espertinho no computador as 4 da manhã) descobriria se ela realmente existe.

Ainda assim, fica o espanto e a suspeita sobre a nacionalidade do texto. Inclusive, em alguns blogs eu vi falarem da Universidade de Lisboa, mas não citavam a Fernanda. Se "antiguidade é posto", os portugueses são os donos, pois a publicação mais antiga que encontrei deles é de 2005. No Brasil (já falando da UFPE), o mais antigo que vi é de junho de 2006.

Não sei quem, mas alguém aí no meio tomou para si a nacionalidade do texto, recusando assumir que outro país lusófono além do seu possa fazer um texto interessante. Não quero fazer acusações, mas vivendo no Brasil sei que temos uma certa tradição em reapropriar e reautorar textos. Este mesmo você vai ver por aí com assinatura do Veríssimo. Sempre ele, esse gênio.

A única unanimidade, portanto, é que essa redação foi feita por uma mulher. Sempre elas, essas pervertidas.

4 de out de 2007

BarCamp Rio de Janeiro

Confirmado o BarCamp Rio de Janeiro!


O encontro vai acontecer no domingo, dia 21 de outubro no Auditório do RDC na PUC-RIO, Rua Marquês de São Vicente, 225, Gávea, Rio de Janeiro, com entrada de pedestres e estacionamento na Rua Pe. Leonel Franca.


Informações sobre a localização e a hospedagem aqui.

O projeto do BarCamp para quem quiser dar uma olhada está aqui. Essa versão está em tramite na Cândido Mendes para ver o interesse da instituição em abrigar um outro BarCamp. Mas, graças ao Nick Ellis, a PUC saiu na frente.

O grupo de discussão do BarCamp Rio de Janeiro está aqui.

Para saber afinal o que diabos é um BarCamp, clique aqui.

Vejo vocês por lá. Se rolar clima devo fazer alguma exposição da minha idéia de etnias online e como isso é útil para pensar redes sociais e marketing na Internet.

30 de set de 2007

Estudar Ciências Sociais

É trocar a tristeza ignorante por um desalento pouco mais esclarecido.

Se antes se debatia perguntando "Meu Deus! Por que as coisas são assim?", agora se fica amuado no canto pensando "Ah, é isso? Então tá".

Nos portões de entrada da vida, deve ter escrito: "Deixai toda esperança, vós que entrais". Ao se condoer, olha-se para baixo e há escrito no capacho: "Vendo Fiat 77. IPVA 2006 Pago".

Não apenas isso. Nos primeiros passos a dentro, uma menina bonita te dá um folder muito bem acabado, coisa de gráfica de primeira, onde as letras ficam andando de um lado para o outro tentando chamar sua atenção. Ao conseguir foco, capta-se o efeito divertido da arte, que posiciona um espelho abaixo de uma chamada onde lê-se: use com responsabilidade.

Como publicidade é um canhão de plasma apontado para um pernilongo, todo mundo acha a mensagem muito divertida, mas poucos lembram de qual produto estava se falando.

31 de ago de 2007

Resposta tardia

Vez ou outra eu encontro comentários em posts antigos me gongando.
Acho divertido.

Neste post.

Anônimo said...

Com essa cara de bicha gorda que tu tens fica fácil entender por que vendia bem. ERA PENA!


Caro anônimo,

Na época eu era magro.

10 de jul de 2007

Top 50 de Anime

Então o governo japonês fez uma pesquisa para descobrir os 50 animes e mangás mais relevantes da história do gênero. Não sei como foi feita essa pesquisa, mas ficou claro para mim que a grande maioria dos entrevistados devia ter por volta da minha idade, pois faltam produções recentes. Essa lista endossa algo que eu falo há anos com o único propósito de irritar fãs de animes mais atuais: "no meu tempo é que tinha anime de verdade". Adoro esse papel de nerd velho e esclerosado que vê Naruto, Death Note e afins e fica resmungando sobre os bons tempos de Pirata do Espaço e como anime virou coisa de Emo.

Sobre a lista eu tenho a dizer:

1º- Neon Genesis Evangelion
Depois de ter assistido umas 20 vezes, eu já até acho chato. Ainda assim, é o anime que decidiu o que ia ser anime. Tinha que estar no Top 5 de qualquer maneira.

2º- Nausicaä Do Vale do Vento
Olha só, toda vez que um anime do Miyazaki aparecer nessa lista, eu vou gritar Miyazaki bem alto. O Top 10 dessa lista tinha que ser só Miyazaki. Esqueça o que eu disse sobre Evangelion no TOP 5. Miyazaki está para o Anime como o Tezuka está para mangá.

3º- Laputa - Castle in the Sky
Miyazaki!

4º- Mobile Suit Gundam
Tem peso histórico para estar aqui. Embora eu nunca tenha gostado muito.

5º- Lupin III - The Castle of Cagliostro
Então você acha o Spike de Cowboy Bepop super maneiro, certo? Então veja Lupin e entenda a inspiração para o personagem.

6º- Mushi-shi
Mushi quem? Nunca vi na vida.

7º- Ghost in the Shell Stand Alone Complex
Possivelmente a melhor série de TV em anime que eu já vi. Consegue ser infinitamente melhor do que o excelente longa que o inspirou. Nesse ponto eu vou começar a gritar Shirow toda vez que aparecer um anime baseado na obra dele. É bem menos que o Myiazaki, mas esse cara é um animal também.

8º- My Neighbor Totoro
Miyazaki!

9º- Fullmetal Alchemist
Ok, eu deixo. É divertido e eu acho maneiro. Tinha que ter um representante "new generation" na lista para ela tivesse crédito com a garotada.

10º- Ghost in the Shell
Shirow! Infelizmente é o último dele na lista, mas é só porque Orion nunca virou anime. Até onde eu sei, é claro.

11º- Dragon Ball
O terceiro grande nome (critério meu, claro) do mangá é o Toriyama, pena que ele se perdeu no furacão Dragon Ball que ele mesmo criou.

12º- Princess Mononoke
Miyazaki!

13º- Akira
Você não vai conseguir entender o que foi a chegada de Akira no ocidente em 1992/1993 a menos que você tenha vivido isso. Se você foi um nerd ligado em desenho animado japonês nessa época, sabe do que eu estou falando. Katsuhiro Otomo é o quinto grande nome da minha lista e ele nem precisava ter feito mais nada além de Akira para isso. Ainda assim, ele foi lá e fez Steam Boy.

14º- Spirited Away
Miyazaki! Talvez seja esta a obra prima dele.

15º- Doraemon
Doraemon merece o primeiro lugar na lista de melhores licenciamentos japoneses. Ficando a frente de Pokemon inclusive. Embora eu ache 15º melhor anime muito, entendo a presença dele aqui.

17º- Porco Rosso
Miyazaki!

18º- Legend of the Galactic Heroes
Eu trocava esse por Yamato que está lá no 35º lugar. O gênero é parecido, o drama é parecido, mas Yamato tem muito mais carisma.

19º- Crayon Shin-chan
Eu até entendi a piada, mas não acredito que Shin-chan tenha relevância para estar nessa lista.

24º- Mobile Police Patlabor 2: the Movie
Alguém pode me explicar o que Patlabor está fazendo aqui? Veio na onda de Evangelion, mas só com a parte ruim.

29º- Nadia - The Secret of Blue Water
É bom, mas a presença de tanta coisa que é apenas "boa" na lista “dos melhores” me faz pensar que anime ainda tem que comer muito feijão com arroz para ter o mérito que pede.

32º- Grave of the Fireflies
O único filme que fala unicamente sobre gente e me faz chorar. Normalmente eu choro em filmes sobre robôs e isso é sério. Tokio Godfathers também me faz chorar, confesso.

34º- O Castelo Mágico (How's Moving Castle)
E lá vamos nós de novo. Miyazaki!

35º- Space Battleship Yamato
Patrulha Estelar, por favor. Afinal, eu sou old school até o osso e eu chamo os animes pelos nomes que eles tinham na TV Manchete.

36º- Wings of Honneamise
Esse longa metragem é realmente bom. Uma história simples sobre honra e sonho num ambiente anacrônico muito melhor do que a maioria desses vitorianos mal acabados que rolam por aí. É bonito de se ver.

38º- Sailor Moon
Isso não pode ser sério.

42º- Doraemon
Japoneses gostam tanto de Doraemon que ele aparece duas vezes na lista. Aqui e na 15º Posição. Essa aqui eu acho mais justa.

44º- Cowboy Bebop
Acho que foi o último anime excelente feito. Ainda aguardo o próximo.

46º- Martian Successor Nadesico
Muita gente briga comigo por que na minha lista de “grandes nomes do anime” eu não coloco o Kia Asamiya. Entendam, não é que seja ruim, eu gostava de Nadesico e me orgulhava de falar Nadesco, que eu jurava ser a pronúncia correta. Só que tudo isso é apenas "ok", nada de muito bom. Já Silent Mobius eu realmente acho ruim.

48º- Urusei Yatsura
Nunca achei graça, mas tem que estar aqui. Tem relevância histórica para o Anime e a Lum é um dos maiores memes da Internet.

49º- Astro Boy
Espero que seja o primeiro desenho do Astro Boy. Acho uma tremenda injustiça ter apenas um desenho baseado na obra do Tezuka e logo na porta de saída. Faltou tato com esse ponto da história da animação japonesa. Eu quero reclamar a falta de Don Drácula!

Se você quiser ver a lista toda dê uma olhada aqui.

14 de jun de 2007

Trilha sonora: Walk Unafraid - R.E.M.

Não sei quem canta a sua vida, mas quem canta a minha é Michael Stipe desde quando eu tinha uns 13 anos e "perdi minha religião".

R.E.M. - Walk Unafraid


As the sun comes up, as the moon goes down
These heavy notions creep around
It makes me think, long ago
I was brought into this life a little lamb
A little lamb
Courageous, stumbling
Fearless was my middle name.
But somewhere there I lost my way
Everyone walks the same
Expecting me to step
The narrow path they've laid
They claim to
Walk unafraid
I'll be clumsy instead
Hold my love or leave me high.

Say "keep within the boundaries if you want to play."
Say "contradiction only makes it harder."
How can I be
What I want To be?
When all I want to do is strip away
These stilled constraints
And crush this charade
Shred this sad masquerade
I don't need no persuading
I'll trip, fall, pick myself up and
Walk unafraid
I'll be clumsy instead
Hold my love or leave me high.

If I have a bag of rocks to carry as I go
I just want to hold my head up high
I don't care what I have to step over
I'm prepared to look you in the eye
Look me in the eye
And if you see familiarity
Then celebrate the contradiction
Help me when I fall to
Walk unafraid
I'll be clumsy instead
Hold my love or leave me high.
Walk unafraid
I'll be clumsy instead
Hold my love or leave me high.

5 de jun de 2007

O Dinossauro levantou a pata e a Mata

Em mais uma ousada atitude da indústria fonográfica, O novo álbum de Vanessa da Mata, "Sim", é lançado em duas versões: uma normal e a Zero. Esse tal CD Zero tem cinco das treze faixas presentes no álbum normal, embalagem simples, sem encarte e custa a bagatela de R$9,99.

A ação de propaganda criada pela Agencia3 dá o tom antipiratira do produto: "No Centro pelo preço da Uruguaiana", com direito a versões para Ipanema, Botafogo e outros bairros do Rio de Janeiro. Se você não é dessas bandas, então eu tenho que dizer que a Uruguaiana é o epicentro dos camelôs e da pirataria carioca.

Eu realmente me emociono ao ver o grande mastodonte da indústria musical tentar dar um longo e arrastado passo numa direção que ele não está acostumado a ir: atender ao consumidor. Devo dizer que esse passo ainda não acabou, está no meio do caminho e longe de chegar lá. Mas o dinossauro levantou a grossa e pesada perna. Para completar esse movimento, basta que as gravadoras (no caso, a Sony/BMG) entendam mais o seu público.

Primeiro é preciso entender que a precificação desse produto está errada. O que faz esse CD custar R$9,99 não é apenas o sua embalagem de cartolina, é a ausência de músicas. Se a idéia é combater a pirataria, como enfrentá-la com um produto de mesmo preço, mas de menor valor? Alguém que realmente queira o CD e não tenha melindres em relação ao consumo de pirataria, vai preferir a versão completa. De encarte, já se abriu mão há muito tempo.

Agora some isso à cultura já presente de baixar músicas na internet. Estou falando das pessoas que não consomem pirataria. Não pagam por ela e, por tanto, não alimentam nenhuma indústria criminosa. São usuários que vivem naquele ponto nebuloso da lei. Eles já abriram mão do encarte e da mídia física. Só baixam o que interessa e ainda podem se desfazer desse conteúdo apertando "del". Então? Quem sobrou para comprar o CD Zero?

Por que não fazer a versão Zero de um CD com todas as suas músicas e concorrer de igual para igual com a pirataria? A resposta é simples: custos autorais. O valor físico de um CD com uma música e outro com trinta é o mesmo. O processo de criar a matriz e prensar suas cópias não difere pela quantidade de micro perfurações no CD. O que se soma a esse custo bruto é o valor artístico do conteúdo.

Mas qual é o verdadeiro valor dessas músicas que estão "sobrando"? Lembre-se que as gravadoras têm modelos de contratos com músicos que exigem um número mínimo de faixas para se lançar um CD. Isso criou a cultura da "música de trabalho". As cinco faixas que realmente importam estão no CD Zero, que são as que vão tocar na rádio e "fazer a cabeça da galera". O restante serve apenas para cumprir tabela. Porém, fica claro que, na hora de dar o preço, são tão importantes quanto a "de trabalho".

Por outro lado, a pergunta correta não seria "por que as oito músicas que ficaram de fora do CD Zero?", mas sim "por que ela gravou essas músicas?". Foi contrato ou elas têm realmente conteúdo? Desta forma, o CD "normal" deveria existir? Quem começou a matar as gravadoras não foi a pirataria, foram as coletâneas, uma prática que tem tanto tempo quanto a própria indústria musical. Quem quer ouvir "o que toca na rádio", espera pela coletânea que logo será lançada, pois tem a percepção de que o valor individual de cada música é maior do que quando se compra o álbum completo de um artista. As coletâneas salvaram a vida financeira de muita gente, mas também abriram caminho para uma cultura onde o valor dado à música pelo consumidor é diretamente proporcional ao sucesso da mesma. Tudo isso é fruto da obrigação dada ao artista de criar música a granel para encher espaço, herança dos tempos do vinil, com formas e formatos mais rígidos. O mastodonte é que ainda não percebeu isso.

Álbuns de música deveriam sempre ser lançados em formatos menores. Quando o artista completar um grupo de músicas - indiferente de quantidade, qualidade é o foco - que realmente representam o trabalho dele, coloca-se o bloco na rua, seja em CDs ou venda on-line de músicas. Quando mais músicas estiverem prontas, o processo começa novamente. No fim de um ciclo de tempo indeterminado, somam-se as faixas e se lança uma edição de luxo, com encarte lindo, muito investimento em design e embalagens inovadoras que fiquem bonitas na estante. Esse seria o produto para fãs sinceros, que curtem a materialização da música na forma de um CD, que vai se transformar como produto até chegar a ser um item de adoração, decoração e colecionismo e não mais mídia. Música por música, eu pego ou compro na Internet, CDs devem conter algo além da música, mas nunca deixar de tê-las.

Os próximos são o Lobão e o Capital Inicial. Boa sorte para eles.

23 de mai de 2007

Quadrinhos Educativos

Eu fico muito feliz quando vejo quadrinhos bem feitos sendo usados para causas educativas.
Infelizmente, quadrinhos educativos costumam ser mal feitos, mal desenhados, péssima narrativa, roteiros ruins e acabam não passando a idéia que deveriam. A razão é simples: quem os fez não entende de histórias em quadrinhos. Possivelmente são ilustradores, designers ou qualquer outro ofício da imagem que, ao fazer um quadrinho sob encomenda, não param para entender que existe um método próprio para se construir quadrinhos. Não basta colocar os quadradinhos um do lado do outro. Tem que ter o ritmo correto, tem que saber compor os quadros e uma série de técnicas que consagram a história em quadrinhos como um processo narrativo único.

Seguem dois quadrinhos educativos que têm tudo isso. Parabéns a quem os fez.

Uma vida de elefante - Quadrinho educativo que visa instruir o leitor sobre as condições dos animais nos circos, faz parte de uma grande campanha para a proibição dessa prática. Repare na cena em que o elefante é liberto, que ganha um tratamento de "virada de página" para assegurar o impacto e o clima. Vejam como os personagens são razoavelmente construídos mesmo que com poucas linhas e imagens. Infelizmente o link da página 14 está ruim, mas dá para ver que foi um trabalho feito por quem tem o mínimo de entendimento no assunto. Só isso já faz toda a diferença.

X-Men in: Life Lessons
- HQ usada para orientação de professores e alunos que lidem com crianças com deficiências físicas. Roteiro simples para mostrar que todo mundo tem seu papel e espaço na sociedade. Wolverine batendo em todo mundo para variar e o guri principal da história ajudando a derrotar o Magneto. Quadrinho feito por profissionais de quadrinhos, como deveria sempre ser.

6 de mai de 2007

Silêncio na Casa Grande

A melhor conversa possível sobre a derrota do Botafogo. Falávamos da sinusite que tive no fim da semana.

Nicholas: Cruel, cruel.

Eu: Cruel é a o juiz e o bandeirinha marcarem um impedimento que não existe e ainda expulsarem o melhor atacante do Botafogo faltando 1 minuto para acabar o jogo.

Nicholas: Ah, futebol de cu é rola.

Eu: Nhé nhé nhé.

Nicholas: Foda-se futebol, na real, vocês hein?

Eu: Nós quem?

Nicholas: Vocês heteros brasileiros.

Eu: Ah sim. Fazer o que? Essas coisas não se escolhem.

Nicholas: Eu escolhi ser gay. Chegou uma fadinha quando eu tinha tipo 5 anos e me perguntou. Mostrou foto de buceta, e falou: você quer isso? A foto era péssima.

Eu: Putz, que lástima. A foto péssima, claro, não sua escolha.

Nicholas: Sim, pensei em processá-la.

Eu: A foto que me mostraram era uma beleza, e não foi fada, foi um troll com a blusa do BOTAFOGO!!!! Foi tudo tão óbvio que nem me pareceu opção.

Nicholas: Você está certo. Agora me clareou a memoria!

Eu: Acho que vou colocar esse diálogo no meu blog.

Nicholas: Maldito! É uma quebra de contrato. IM é privado, blog é público. Acho que vou te processar também. (põe essa parte também)

Eu: Com certeza.

Bom, agora é ter que aturar piadas sobre o meu time ser "pequeno". Quanto a isso eu respondo que sim, torcemos para time pequeno para compensar o tamanho do nosso sexo.

14 de abr de 2007

Código de conduta em Blogs

Sobre a iniciativa o Tim O'Reilly de criar um código de conduta para blogs, eu tenho algumas coisas a dizer. Vamos por tópicos:

1. We take responsibility for our own words and reserve the right to restrict comments on our blog that do not conform to basic civility standards.

Se responsabilizar pelo que diz não é código de conduta, é ser Homem. É honrar as calças que se veste. Pelo menos na minha terra é assim e é o que eu acredito ser bom e correto. Quase autoevidente. Se isso precisa ser escrito então alguém anda precisando levar uns tabefes.
Quanto a se reservar ao direito de apagar comentários: eu acredito nesse direito. Sua casa é seu reino, você coloca quem quer para dentro e o problema é seu. Do mesmo modo, se eu quiser manter os comentários agressivos apenas por que "sim" também é um direito meu.

2. We won't say anything online that we wouldn't say in person.

Mesmo do dito acima sobre hombridade. Quem não faz isso naturalmente precisa levar uns catilipapos. Para isso serve o mundo real. Para sentar a mão na cara de alguém. Como a Internet é não-geográfica, o dito no tópico 4 fecha essa conversa.

3. If tensions escalate, we will connect privately before we respond publicly.

É um direito inalienável de qualquer cidadão fazer barraco em público. Se alguém vai ao meu blog e fica me gongando, eu quero poder quebrar o pau ali mesmo na caixa de comentário ou nos meus outros posts simplesmente por que eu quero registro público da discussão. Isso de criar a cultura de discutir à portas fechadas é coisa de quem tem medo de expor negociações e acordos. Jogo de cumadre.

4. When we believe someone is unfairly attacking another, we will take considered action.

Ui, ui, ui, eles ficaram nervosos e vão tomar uma atitude. Vão criar um selo de protesto e colar no blog. Eu sou do tempo das bbs (ok, nem tanto, mas eu conheço a cultura). Lá uma discussão saudável e de nível incluía a cotação da mãe de todo mundo no rank das prostitutas da cidade. Ainda acredito que bom-humor e sagacidade resolve qualquer conflito on-line melhor do que chamar a mamãe host. Novamente esse código de conduta apenas finge ter bolas.

5. We do not allow pseudonymous comments, but will allow anonymous ones.

Grande bobagem. A Internet é a terra dos avatares e pseudônimos, tirar esse direito das pessoas é criar uma multidão de anônimos perturbados no melhor estilo lutherblissetiano. Isso mostra que eles simplesmente não sabem do que estão falando ou nunca viram os anônimos do 4chan em ação. Não há problemas com pseudônimo se um usuário sempre usa o mesmo para se identificar. Se alguém troca de pseudônimo a cada comentário, não há diferença em relação ao anonimato. Óbvio que voltamos à honradez em que, com um nick ou não, há de se assumir o que se fala e encarar as conseqüências. Investigação por IP está aí para isso.

6. We ignore the trolls.

Eu quero o direito de responder trolls com toda a grosseria ou bom-humor possível. Isso serve para desopilar o fígado e promover diálogos surreais e divertidos. Quem quiser ignorar: que ignore. Eu, enquanto blogueiro, quero não ter cerceado o meu direito de acolher e dar comida para os trolls só por diversão. HAND YHBT

7. We encourage blog hosts to enforce more vigorously their terms of service.

Essa é dose: achar que os host têm responsabilidade sobre o uso feito de seus serviços. No próximo ato vamos processar a tramontina por cada assassinato cometido com uma faca. No fim de tudo processamos Deus pela existência. Sartre quase o fez. Quando vai se entender que a Internet é autoregulada pela sua comunidade? Já viram quanto tempo dura um profile/comunidade de pedofilia ou racismo no Orkut? Óbvio que essa conversa não é tão simplista. Termo de uso é termo de uso. Os servidores devem ser rastreados para evitar pedofilia e outros crimes virtuais ativamente. Tanto pelo próprio suporte técnico quanto pela comunidade.

Quero o meu selo com a dinamite, onde eu pego?

13 de abr de 2007

Jovens Japonesas Lésbicas Sadomasoquistas

Não é pornografia, é arte, ok? Mais neste link aqui. Não descobri como é o nome do autor(a), está tudo em japonês. Se descobrir, favor escrever nos comentários.

5 de abr de 2007

Ah, os velhos tempos...



Lembro de ter visto essa passeata na porta do prédio em que trabalho.

Lembro de tê-la achado bem legítima. Pouquíssimas bandeiras partidárias de CUT, PSTU, PT ou qualquer outra coisa datada e brega do tipo. As bandeiras eram de não um, mas de vários movimentos estudantis.

Lembro que os gritos de guerra da passeata incitavam vandalismos como pular a roleta, o que eu acho muito legítimo. Seguindo o padrão europeu de civilização, quando o Estado vai contra você, você quebra o Estado. Nada mais justo. Para mim a grande lacuna política do brasileiro reside na falta de hábito de quebrar tudo a sua volta quando algo está errado. Preferimos reclamar com um anônimo na fila do banco do que virar algumas mesas e tacar fogo em propriedade privada e pública.

Ah, o homem cordial. Faltou foi sangue germânico, bretão ou franco na nossa formação.

Fiquei com um certo orgulho da classe estudantil carioca. Desde o patético episódio dos caras-pintadas sempre olho torto para manifestações estudantis. Dessa vez achei tudo muito correto. Tão correto que o Estado teve que usar seu aparelho de repressão.

Ah, estão voltando as flores. A graça é que agora temos Internet para deixar outras realidades vazarem e nada vai morrer em arquivos empoeirados e queimados secretamente nos fundos de uma base militar.

31 de mar de 2007

Estampa no Camiseteria


Liberdade para o trocadilho. Cliquem na imagem e votem na minha estampa. Prometo que se ganhar pago um joelho com refresco de caju para a galera.

Quem quiser pode trocar o joelho por um pastel de queijo. Tenho que pensar nos amigos vegetarianos.

30 de mar de 2007

Piada de trabalho

Para mostrar que continua ocorrendo o mesmo que aconteceu aqui, venho novamente mostrar o que eu acredito ser um ambiente de trabalho saudável. Realmente acho que eu deveria ganhar um extra por isso. Quem sabe quando eu trabalhar no google?

Assessora de Imprensa coletando informações sobre a fábrica de softwares para o boletim interno da empresa.

Assessora: O nome do projeto é Centralização de Vestuário ou Vestiário?

Alguém: VestuÁrio, é sobre roupas.

Eu: É, Centralização de Vestiário seria um projeto de unificação de todos os vestiários do mundo. Sempre que você fosse trocar de roupa em algum lugar seria, na verdade, o mesmo lugar.

Platéia: Risos

Eu: Esse projeto na verdade faz parte de mais um plano malígno do Lex Luthor para pegar o Super-homem.

Platéia: Mais risos.

26 de mar de 2007

The Uncles

Comentário certeiro do Irapuan sobre fenômenos online criados artificialmente.

Na verdade eu quero descobrir a mesma coisas que os publicitários querem: como se dá o fenômeno da mídia espontânea na Internet. Eu por razões acadêmicas, eles por comerciais. Um bom trabalho sobre o assunto pode me render dinheiro, o que não me faz nada distante dos publicitários que, espero, paguem por algum estudo meu. Acredito que o desafio hoje nem é mais tanto o "fazer acontecer", mas "fazer acontecer" sem gerar mal estar.

21 de mar de 2007

Twitter

Se existe a tal da Web 2.0 o Twitter pode servir com a síntese dela. É um aplicativo extremamente simples, só que com um monte de desdobramentos e propósitos.

O mote dele é “o que você está fazendo”. No fim das contas você ganha uma página pessoal que é um blog com limite de caracteres. Algo como 140 toques. A graça está nos seguintes pontos:


  • Você pode postar de várias plataformas: IMs (AIM e Gtalk), Web e SMS (torpedos de celular).

  • Você pode adicionar pessoas numa lista de amigos ou "observados" e um dos modos de visualização da página mescla os seus textos com o dos seus amigos, organizado por ordem cronológica.

  • Você pode colar uma “caixa” que exibe o seu Twitter, no seu site e está vai informar a sua última postagem.

  • Você pode selecionar se suas mensagens aparecem no “blog coletivo” que exibe as mensagens de toda a comunidade ou não. É o único nível de privacidade que ele oferece.

Como toda ferramenta que ganha esse selo “2.0” sendo ele falso ou não, o verdadeiro diferencial está nos desdobramentos que a comunidade cria a partir do pacote básico de ferramentas oferecidas. Com isso os usuários têm feito:


  • Chats multi-plataforma: Uma pessoa no celular, outra usando o site e outras usando os IMs de sua preferência, podem manter uma conversação usando a visualização mesclada das mensagens.

  • Você pode criar diversas contas no Twitter e criar um profile de blog com isso. Por exemplo, eu crio uma conta chamada romulofilmes, outra chamada romulolivros. Numa eu coloco o último filme que vi e na outra o último livro. Coloco as “caixas” do twitter no meu blog e passo a ter um informativo de fácil atualização e que gera um histórico.

  • Agências de notícias como a Reuters e a CNN já estão presentes lá. De forma que eu posso ver na minha página do Twitter (ou receber no meu celular) as últimas notícias postadas. Assim como as grandes agências um usuário comum pode fazer a mesma coisa do tipo “notícias” rápidas para falar do filho que está vindo, da festa que está produzindo e colar a caixa do Twitter em algum lugar. Uma alternativa limitada para um RSS.

  • Como é possível postar links no Twitter, você pode usá-lo como um del.icio.us, ou como qualquer outro bookmark público. Lembrando novamente do macete da “caixa”, que eu posso colocar no meu blog e com isso fazer um “link do dia”.

Para compensar todas as limitações do Twitter (limite de caracteres e formatação) está o fato de você poder postar de qualquer lugar. IMs principalmente. Eu posso estar trabalhando freneticamente e usando o GTalk fazer um comentário rápido (até por que eu não posso fazer nenhum outro) sem ter que abrir uma interface Web para o blog ou qualquer coisa do gênero

Se o Brasil vai curtir ou não me é um mistério. Eu não vejo o Twitter atendendo nenhuma necessidade que o Orkut não atenda para essas pessoas. O Twitter também não funciona com o MSN, que é o IM número 1 no Brasil. Para terminar, a interface dele com celulares, na minha opinião o grande “Caramba!” da ferramenta, não funciona com todas as operadoras nacionais e tem o custo de um SMS internacional.

Tecnicamente falando eu acho o Twitter muito bem feito. Interface clara, simples e facilmente customizável pelo próprio site. Feito seguindo os padrões W3C e todas essas coisas da moda.

O serviço já está enfrentando aquele engasgamento típico de coisas da Internet que dão certo: mais usuários do que eles podem agüentar. Aguardo a melhoria dos servidores deles para voltar com a caixa para lá. Aliás, até acessar o site anda complicado. Quem quiser tentar a sorte pode dar uma olhada no meu Twitter.

9 de mar de 2007

Comentário fora de hora sobre o Criança Esperança

Aparentemente existe um e.mail circulando por aí que "denuncia" um abuso da Rede Globo de TV. O conteúdo fala sobre o fato da Globo abater do seu Imposto de Renda a doação massiva que a emissora faz a UNICEF, ao passo que o cidadão que faz a doação por telefone não pode abater o valor em sua declaração. Afinal, a UNICEF é uma instituição e Criança Esperança apenas uma marca.

Não entendi o espanto, sinceramente.

Isso é assumido pela Globo. Não só pela Globo, mas por toda empresa que pratica "responsabilidade social".

Na verdade a questão é bem mais "simples" do que parece: uma vez que o mercado não é ético e nem tem que ser enquanto mercado, ele necessita de reguladores. Um tipo de regulador que "entrarou na moda" foi o abatimento em impostos mediante invetimentos no social.

A moda em cima de "responsabilidade social" não começou pq as empresas se tornaram maneiras. Começou a ser uma bom negócio para elas. Capitalizaram a "solidariedade", pois de qualquer outra forma ela nunca chegaria às corporações.

Eu acho o criança esperança brega. Esteticamente e filosoficamente. Nada contra ajudar as crianças, mas tudo contra fazer isso por telefone e se sentir um "cumpridor dos seus deveres sociais". Delegando suas obrigações a uma empresa privada em troca de míseros 5, 15 ou 30 reais.

Que bom para a Globo que ela paga os impostos dela com isso, custa dinheiro fazer aquele circo todo. Se é para questionar alguém vamos em cima da UNICEF, que é uma das instituições mais picaretas que eu conheço. Ela é quem recebe as doações da nossa classe média falida que acha possível ser solidário por telefone e ainda reclama quando é assaltado na rua, ainda se espanta com a violência e acha que pendurar uma bandeira escrito PAZ na janela um ótimo protesto.

Ninguém vai bater na porta da UNICEF para perguntar como ela gasta o dinheiro que recebe do criança esperança. Mas há um grande interesse de como a Globo paga seus impostos. A Globo não me importa nesse sentido. Ela não dá nada além do que é pedido e não faz nada além do esperado uma vez que é um conglomerado financeiro. Já da UNICEF e da curriola das ONGs que mamam dinheiro público e privado para não fazer nada, ninguém fala.

O modelo das non-profit se tornou um grande negócio. Poucos impostos, muitos incentivos e uma imagem criada coletivamente de que "eu estou cumprindo o meu papel". O número de ONGs no Rio de Janeiro que cuidam das crianças carentes deveria dar conta do problema com sobra. Mas de onde virá o dinheiro se não houverem mais crianças na rua? A mesma máxima da política main stream de monetarizar os problemas e torná-los insolúveis para prosseguir com o fluxo financeiro se aplica.

Essa profissão de "aquele que resolve os problemas" deveria ter início, meio e fim. Uma vez que os problemas fossem resolvidos. Porém, quem atiraria no próprio pé?

21 de fev de 2007

O teu IP não nega, mulata.

Postei um artigo de cibercultura no site outrolado, que é a versão colaborativa do webinsider.

Inicialmente era um trabalho de graduação sobre Sérgio Buarque de Holanda. Fala sobre alguns comportamentos do brasileiro online, usando alguns exemplos recentes e algumas máximas do autor. O trabalho tenta mostrar que o tal "orgulho de ser brasileiro" tem os seus limites quando se trata de Internet. Interessante para se pensar nos reflexos dessa idéia em marketing e gestão de produtos online no Brasil.

Divirtam-se.

16 de fev de 2007

Numa noite tão bonita

- Então, vamu?

Disse Marcelo, mais conhecido na vila como Agrião. Ele tinha 16 anos, as espinhas ainda brotavam amarelas em sua face ensebada. Seu cabelo desgrenhado e castanho não escondia as caspas que caiam sobre sua blusa de um xadrez vermelho e laranja. Ele adorava essa blusa. A tinha desde os 12 anos e ganhou de um primo que veio - sem ele saber, a muito contragosto - da cidade. Sua calça de tergal, embora passada cirurgicamente com vincos já não era mais tão azul quanto antes. Ele escolhera a melhor roupa para aquele momento.

- Ah, Agrião, não sei...

Disse Ritinha de forma manhosa. Ela estava na flor de seus 15 anos, vistosa e com a pele boa. Muita pele boa, inclusive. Para sua pouca altura, os quase cem quilos tornavam a melhor metáfora para o seu corpo a imagem de uma delicada maçã. Os olhos, meio saltados para fora das órbitas, fitavam Agrião. A visão podia não ser a melhor, mas o cheiro era bom. Algo como madeira almiscarada. O mesmo cheiro da manhã de domingo, do frango assado feito pela sua mãe e do óleo da caminhonete de seu pai. Ritinha nunca havia comentado isso com ninguém, mas o mundo para ela tinha sempre o mesmo odor. Provavelmente tinha a ver com o formato engraçado de seu nariz, que apontava em sua totalidade para a esquerda.

- Ah, vamu Ritinha... Ninguém vai ficá sabendo.

Agrião transpirava. O azedo do suor se misturava com o cheiro do galinheiro onde ele trabalhava o dia todo. Além disso, tinha a alfazema barata que roubou de sua mãe para se preparar para o encontro. Para ele Ritinha era um anjo que havia descido dos céus. Já flertavam há anos nas missas, nas festas e trocavam olhares e sorrisos sempre que se encontravam. Todo o seu desejo e tesão a ela pertenciam. Tinha planejado tudo: se encontrariam depois das dez atrás da igreja para namorar. Nessa hora toda a roça já tinha ido dormir e eles estariam seguros em território sagrado.

- , bom então. Eu vou.

O menino voltou para sua casa correndo. Tinha que esperar dar a hora de sair novamente deitado em seu quarto, fingindo a dormideira para que ninguém desconfiasse. Na cama, ficou imaginando suas mãos na larga cintura de Ritinha, sua pélvis roçando na barriga dela. Seus lábios tocavam a boca fina de Ritinha e o sabor era bom. Teve que se conter para não se tocar. Trocava o pensamento dela por uma oração para tentar esfriar a alma. Na verdade estava tentando guardar forças para as horas vindouras que, em sua fantasia, seriam calorosas.

Olhou a lua e mediu a distância entre ela e o carvalho que crescia no quintal. Estava na hora. Saiu pela janela, o cabelo havia sido deformado pelo travesseiro, mas ele não ligava. Ajeitou a roupa e se sentiu bem. A rigidez entre suas pernas fazia com que se sentisse mais viril e confiante. Chegou na Igreja, olhou para os lados e foi direto para os fundos. Se encostou na parede e sentiu o frio levemente chapiscado do concreto nas costas. Tentava recuperar o fôlego de alguma forma, mas seu peito parecia que ia explodir.

- Agrião?

O coração quase parou, mas nada que engolir a pouca saliva da boca não resolvesse. Era ela, linda como sempre. Estava com um vestido bege. Flores verdes e azuis bordadas na barra de renda. Rodelas de suor sob os braços denunciavam que ela também havia corrido para estar lá. Sem nenhuma palavra, eles se abraçaram. Agrião se sentiu próximo de Deus. Sentiu o corpo dela em volta do dele, quente e macio. O cheiro dela era algo suave e gorduroso como manteiga, o dele era de madeira almiscarada.

Eles se afastaram levemente, apenas o suficiente para se entreolhar. Os dois tremiam em uníssono, de uma forma que um não percebia o nervoso do outro, mas o chão sentia o de ambos. Agrião viu o reflexo da lua nos olhos amarelados dela e isso o inspirou. Houve então o beijo. Não foi demorado. Os dentes se roçaram, as línguas não se encontraram e Ritinha estava com os lábios rachados e secos por conta da queimação no estômago. Os dois acharam uma delícia. A melhor coisa já acontecida em suas vidas. Mal podiam esperar para se beijar novamente.

Os rostos se distanciaram um pouco, os dois com sorrisos bobos e ainda sentindo o frio em suas colunas. Tudo era maravilhoso, cada sensação que o corpo tinha o direito de perceber fazia bem. Agrião olhou novamente nos olhos de Ritinha e não viu mais a lua. Estava tão emocionado que não percebeu a falta da bola amarela que tentava eclipsar a menina dos olhos de sua amada. A única coisa que conseguiu tirar o casal de seu transe foi o som. Era algo como uma ventania, mas sem o embaraço dos cabelos. Um sussurro talvez, caso os sussurros fossem altos. Era mais como uma multidão sendo ouvida de longe, a única diferença é que era apenas uma pessoa e ela estava logo atrás de Agrião.

Eles se viraram espantados. Em suas mentes, os mesmos pensamentos ocorriam ao mesmo tempo. Coisa de gente apaixonada. Seria o Padre? Seria o pai de Ritinha? Seria um lobisomem ou quaisquer outros desses demônios? Até o fim de suas vidas, Ritinha e Agrião nunca descobriram. A coisa grande, magra e branca pegou o menino. No mesmo instante seu corpo entrou em colapso. Urina e Fezes escorreram por suas pernas como a materialização do pavor. Ele foi pressionado na parede com força, alguns bons centímetros acima do chão. Pego pelo pescoço, pelos braços, pela barriga e pelo pênis. Por um instante a criatura grudou seu rosto no de Agrião, uma versão absurda do beijo que ele acabara de dar. O menino gritou de desespero quando a coisa afastou bruscamente o rosto, arrancando o pelo que unia as duas sobrancelhas de Agrião, deixando elas mortalmente separadas e com um ótimo acabamento. Ritinha estava em choque. Nem os sermões mais criativos do padre sobre as faces do diabo prepararam a menina para aquele momento.

A mente de Agrião girava. Perdida em algum lugar entre as químicas do amor e do espanto. Ouviu um barulho de coisas ocas caindo no chão. Não havia mais nada de racional nele que pudesse adivinhar que eram potes de plástico. Entre o turbilhão de pensamentos que lhe ocorriam, o de maior destaque era o que perguntava se Ritinha havia percebido que ele se cagou todo como uma criança. Acordou desse estado quando sentiu uma pasta fria sendo esfregada sobre o seu rosto. Parecia uma mistura de requeijão com areia e arranhava a sua pele. Algo brincava com os seus cabelos, arrancando-os e colocando-os em algum outro lugar da cabeça. Sua roupa foi rasgada em pedaços. Ao perder as calças, as fezes que nela habitavam voaram desordenadamente misturadas ao tergal surrado. Ao sentir o visgo quente com cheiro de madeira almiscara correr pelo rosto, Ritinha acordou. A cena que ela presenciava era pior que qualquer pesadelo. A coisa branca cheia de braços estava coberta pelo sangue de Agrião e agora socava impiedosamente a boca do rapaz com uma das mãos. Outra mão menor pegava os dentes que caiam e colocavam de volta na boca, enfiando os cacos nas gengivas do rapaz.

Ritinha não conseguiu gritar, não havia voz que pudesse sair de seu corpanzil. Na falta de qualquer coisa melhor para fazer ela correu. Nunca correu tão rápido em toda a sua vida. Na escola as meninas e meninos costumavam zombar dela pela falta de preparo físico. Ah, se eles a vissem agora. Uma perna depois da outra, largas coxas roçando a ponto da assadura. Ritinha corria, engasgava, ofegava e cuspia, sem nenhuma ordem em particular. Era tudo que o instinto havia reservado para ela. Achou melhor não fazer desfeita para o seu sistema nervoso, a mãe a havia criado com a melhor das educações. Conseguiu contornar a construção, não ouvia nenhum grito de Agrião ou barulho do monstro. Primeiro socou a porta da igreja, rezou pela vinda do padre. Depois esmurrou com toda a força de seus braços roliços a madeira da porta e implorou pela vinda de qualquer um. "Bata e a porta se abrirá", lembrou com um certo alento quando viu um tantinho de luz se formando pela fresta da porta que se abria. A pouca luz e a fresta se tornaram maiores e maiores devagar. Ela viu então os olhos do demônio. Quantos eram? Ela não conseguiu contar. Eram todos claros, disso ela tinha certeza. Tons de amarelo, azul, verde, cinza e violeta. Ela desmaiou.

A maior benção que Ritinha poderia desejar era continuar inconsciente, mas ela acabou acordando com o impacto. A primeira coisa que percebeu era um punho branco manchado de sangue indo contra seu rosto. Sentia o sangue escorrer pelo seu nariz e ele tinha o pior cheiro que Ritinha já havia sentido. Que saudades da madeira almiscarada. Após cada golpe outras mãos tocavam seu rosto e colocavam o nariz da menina para frente e para cima. Soco, dor, sangue, para frente e para cima, seguidas vezes. Ela chorava enquanto outras mãos pareciam massagear seus olhos, até que sentiu um corte na barriga e as lágrimas perderam todo o pouco sentido que tinham. Começou debaixo, na altura do ventre e subiu até o meio dos seios. Foi profundo o suficiente para ela sentir várias mãos penetrando seu abdômen. A última coisa que pensou foi em Agrião. Eles estavam nos fundos da igreja e ele penetrava nela com toda a força enquanto suava. Ela sentia o gosto salgado de cada gota que caia sobre seus lábios. Olhava para frente e via os bicos duros de seus seios e a curva grande de sua barriga, que Agrião usava de apoio para subir e descer rapidamente sobre ela. Foi passando esse pequeno filme em sua cabeça que ela se tocou enquanto esperava a hora de ir encontrar o menino.

A pequena vila acordou aos berros. Uma velha parteira foi a primeira a ver. Logo depois o padre, ainda em trajes de sono, correu para acudir, mas trocou um verbo por dois: ajoelhar e rezar. Não demorou muito para que todos estivessem de pé em frente à igreja. Chorando, gritando e perguntando porque. Nada é pior do que não saber explicar. Às vezes acontecem coisas que só podemos contemplar, pois não há conhecimento que possa encaixotar certos fatos dentro de uma gaiola do possível. Sorte de quem tem Deus no coração e encontra Nele todas as respostas, ainda que as mais cruéis. Mesmo em Deus, como explicar aquele casal pregado na porta da igreja? De braços dados, sorrindo tranqüilamente e tão diferentes do que eram? Não era importante o fato deles não estarem em casa quando deveriam, assim como importava apenas para o delegado quem foram os assassinos. Ninguém ia pensar nisso antes de conseguir entender o que se passou.

Agrião usava um Armani. Costurado sobre medida em seu corpo. Parecia mais alto e mais elegante. A postura curvada, fruto do trabalho catando o refugo das galinhas, havia se perdido. Seus cabelos estavam espetados, modelados com gel num corte muito interessante. Os dentes polidos e brancos exibiam um sorriso perfeito e a pele do rosto, rubra de sangue, estava lisa e bem barbeada. O pai de Agrião estava abraçado ao pai de Ritinha, que ainda não havia pronunciado uma palavra se quer e pouco mudava de expressão. Estava congelado, talvez imitando a filha. Ela usava um vestido de noiva tomara-que-caia, muito moderno, com a saia em formato de cone e um ótimo acabamento. Era em tons de marfim e pérolas com um brilho natural, tinha discretos bordados curvos em sour ton, muito delicados e cobertos de sangue. As costas nuas mostravam a pele e a ossatura de Ritinha, que estava com menos da metade de seu volume. O nariz apontava para o além com uma empáfia quase natural. Os olhos haviam recuado um pouco em seus espaços e exibiam uma coloração leitosa. Os cabelos haviam sido escovados e tingidos. Agora eram de um tom de vermelho muito bonito, pendendo em cachos volumosos que clareavam nas pontas. A maquiagem era sutil, servia para acentuar os sulcos presentes no rosto que fora redondo.

Havia algo de muito incômodo naquilo tudo. No meio do choro, uma atmosfera de rejeição tomava a platéia. Passado o susto e o horror inicial, foi percebido algo além da morte. Algo que vinha na forma discreta de uma atitude. Talvez fosse o sorriso debochado, a pose meio lânguida em que se encontravam. Eles pareciam superiores a todos os presentes, ainda que esfacelados. Havia um certo ar de ausência em suas expressões inchadas que não era a simples falta de vida, mas algo distante e despreocupado. Por mais que fosse culpa dos grampos e alfinetes, o que ninguém nunca comentou era que eles estavam bonitos. Belos como todos acreditavam que o amor deveria ser.

15 de fev de 2007

Porque corrupção e injustiça tem em todo o lugar

Inclusive nos países desenvolvidos. O antigo "primeiro mundo" dos meus tempos de segundo grau, hoje ensino médio. Muda-se a sintaxe quando a semântica ganha contornos piores, creio eu.

A diferença é que nos países desenvolvidos (sic) os protestos são mais interessantes.
Se essa moda pegar aqui eu aconselho consultorias com a Helena.
Os grifos na matéria são meus.

Advogado que se vestia de Alice é suspenso e abandona a carreira

Rob Moodie usava o vestido azul da personagem infantil como forma de protestar.
Desde outubro, o advogado havia mudado seu nome para "Senhorita Alice".

WELLINGTON - Um advogado da Nova Zelândia que trocou o terno e a gravata por um vestidinho à moda de "Alice no País das Maravilhas", para reclamar do "excesso de homens no Judiciário do país" encerrou o protesto na quarta-feira (14), após ser multado e suspenso, por três meses, pela Suprema Corte do país por ter divulgado na internet documentos confidenciais de um processo.

Depois da sentença, Rob Moodie, que desde 21 de outubro de 2006 havia mudado seu nome para "Senhorita Alice", anunciou que estava encerrando seu protesto porque ele "já não precisava mais aparecer em um ambiente do século XIX que permite que a pompa, a presunção e a complacência eclipsem a verdade".

Mood usava o mesmo vestido (e os mesmos sapatos) da personagem infantil criada pelo escritor Lewis Carroll.

Em 2006, uma perícia havia incriminado um casal de fazendeiros pela queda de uma ponte construída pelo exército em sua propriedade. O doutor Moodie obteve documentos provando que os engenheiros da Força de Defesa da Nova Zelândia haviam usado madeira imprópria para a obra. O juiz proibiu a divulgação desses documentos.

Indignado, o veterano da lei iniciou o protesto, apontado pelo jornal londrino "The Times" como a mais bizarra conduta de um advogado em 2006.

Moodie declarou ainda que está abandonando a carreira. Ele tem 68 anos, é casado e tem três filhos.

14 de fev de 2007

Sobre a dificuldade de ser

Hoje teve um desses eventos motivacionais aqui na Empresa. Em linhas gerais, foi um belo café da manhã para um grupo de funcionários escolhidos aleatoriamente. Durante o evento, algumas dinâmicas de grupo davam o tom de integração, planejamento estratégico e afins. Sempre divertido conhecer outras pessoas que fazem parte da mesma organização que eu, só que exercendo outras competências.

Durante uma das dinâmicas, você se apresentava e comentava seu papel na Empresa. Nada original, mas sempre necessário. Aí vem a parte onde eu falo de Arquitetura de Informação e tento agregar algum valor ao meu cargo. Eu costumo me sair bem dessas situações, desde o início da minha carreira como Designer tenho que parar para explicar o que eu faço. Designer não tem uma carga semântica com o peso de Engenheiro, Médico, Advogado e por aí vai. Sou uma vítima da modernidade. Essa última frase é uma piada e eu espero que você tenha percebido.

Pensando na dificuldade que tenho para definir o que ocupa a maior parte do meu tempo, descobri que tenho dificuldade para explicar qualquer coisa que diga respeito a mim mesmo. Eu não sei explicar meu gosto musical, eu não sei explicar minha situação financeira (sempre precária não importa o quanto eu ganhe), eu não consigo explicar meus relacionamentos e afins. Eu tenho um conjunto de textos prontos que copio e colo nas situações chaves, mas qualquer "por que" perguntado faz com que eu caia num ponto não óbvio em que aprendi - depois de muito tempo - a dizer "não sei".

Ontem, numa reunião com um cliente, houve um questionamento sobre o produto que estou desenvolvendo. Respondi rápido e certeiro como se perguntassem meu nome ou o nome dos meus pais. Respondi na velocidade do óbvio.

Conclusão: as coisas que eu faço têm mais personalidade do que eu. Elas nascem bem definidas, com propósitos certeiros e cumprem o seu papel sem dúvidas existenciais. Já eu pareço viver através delas e não o contrário. Sou bom na medida em que o que eu desenvolvo é bom e a inversão dos valores dessa frase mantém a sua verdade.

Mesmo fora do meu ambiente de trabalho isso se mantém. Sou ou não sou a partir do que eu faço ou não faço. O caminho reverso disso é você perceber (estando correto ou não) que não faz algo bem e se entender a partir disso. No fim das contas você pode ser um monte de coisas, mas vai ter sempre uma pesando mais do que as outras. Apenas torçam para não ser essa uma a cair.

8 de fev de 2007

Migrando

Para a aplicação nova do Blogger pós fusão com a Google.
Agora eu tenho Tags e mais outras frescuras.
Diversão para toda família.

Esse post não é sobre globalização, mas a tag está alí para eu testar o filtro por tags.

OK Reflitäo!!!1one

Edit: Na boa, o blogger está PHEENO agora. Tudo muito wiki, user centered, Web 2.0, colaborativo e todas as palavras da moda.

5 de fev de 2007

Clareza Política: Três por um real, só aqui na minha mão

Algum dia da semana passada.
Em alguma rua do Centro do Rio.
Duas camelôs conversando.

Sra. Camelô 1 - Cada dia que passa tá mais quente, né? Nossassinhora.
Sra. Camelô 2 - É essa globalização, minina!

Se ela soubesse o quanto está sutilmente correta, falaria com ainda mais certeza.