16 de fev de 2007

Numa noite tão bonita

- Então, vamu?

Disse Marcelo, mais conhecido na vila como Agrião. Ele tinha 16 anos, as espinhas ainda brotavam amarelas em sua face ensebada. Seu cabelo desgrenhado e castanho não escondia as caspas que caiam sobre sua blusa de um xadrez vermelho e laranja. Ele adorava essa blusa. A tinha desde os 12 anos e ganhou de um primo que veio - sem ele saber, a muito contragosto - da cidade. Sua calça de tergal, embora passada cirurgicamente com vincos já não era mais tão azul quanto antes. Ele escolhera a melhor roupa para aquele momento.

- Ah, Agrião, não sei...

Disse Ritinha de forma manhosa. Ela estava na flor de seus 15 anos, vistosa e com a pele boa. Muita pele boa, inclusive. Para sua pouca altura, os quase cem quilos tornavam a melhor metáfora para o seu corpo a imagem de uma delicada maçã. Os olhos, meio saltados para fora das órbitas, fitavam Agrião. A visão podia não ser a melhor, mas o cheiro era bom. Algo como madeira almiscarada. O mesmo cheiro da manhã de domingo, do frango assado feito pela sua mãe e do óleo da caminhonete de seu pai. Ritinha nunca havia comentado isso com ninguém, mas o mundo para ela tinha sempre o mesmo odor. Provavelmente tinha a ver com o formato engraçado de seu nariz, que apontava em sua totalidade para a esquerda.

- Ah, vamu Ritinha... Ninguém vai ficá sabendo.

Agrião transpirava. O azedo do suor se misturava com o cheiro do galinheiro onde ele trabalhava o dia todo. Além disso, tinha a alfazema barata que roubou de sua mãe para se preparar para o encontro. Para ele Ritinha era um anjo que havia descido dos céus. Já flertavam há anos nas missas, nas festas e trocavam olhares e sorrisos sempre que se encontravam. Todo o seu desejo e tesão a ela pertenciam. Tinha planejado tudo: se encontrariam depois das dez atrás da igreja para namorar. Nessa hora toda a roça já tinha ido dormir e eles estariam seguros em território sagrado.

- , bom então. Eu vou.

O menino voltou para sua casa correndo. Tinha que esperar dar a hora de sair novamente deitado em seu quarto, fingindo a dormideira para que ninguém desconfiasse. Na cama, ficou imaginando suas mãos na larga cintura de Ritinha, sua pélvis roçando na barriga dela. Seus lábios tocavam a boca fina de Ritinha e o sabor era bom. Teve que se conter para não se tocar. Trocava o pensamento dela por uma oração para tentar esfriar a alma. Na verdade estava tentando guardar forças para as horas vindouras que, em sua fantasia, seriam calorosas.

Olhou a lua e mediu a distância entre ela e o carvalho que crescia no quintal. Estava na hora. Saiu pela janela, o cabelo havia sido deformado pelo travesseiro, mas ele não ligava. Ajeitou a roupa e se sentiu bem. A rigidez entre suas pernas fazia com que se sentisse mais viril e confiante. Chegou na Igreja, olhou para os lados e foi direto para os fundos. Se encostou na parede e sentiu o frio levemente chapiscado do concreto nas costas. Tentava recuperar o fôlego de alguma forma, mas seu peito parecia que ia explodir.

- Agrião?

O coração quase parou, mas nada que engolir a pouca saliva da boca não resolvesse. Era ela, linda como sempre. Estava com um vestido bege. Flores verdes e azuis bordadas na barra de renda. Rodelas de suor sob os braços denunciavam que ela também havia corrido para estar lá. Sem nenhuma palavra, eles se abraçaram. Agrião se sentiu próximo de Deus. Sentiu o corpo dela em volta do dele, quente e macio. O cheiro dela era algo suave e gorduroso como manteiga, o dele era de madeira almiscarada.

Eles se afastaram levemente, apenas o suficiente para se entreolhar. Os dois tremiam em uníssono, de uma forma que um não percebia o nervoso do outro, mas o chão sentia o de ambos. Agrião viu o reflexo da lua nos olhos amarelados dela e isso o inspirou. Houve então o beijo. Não foi demorado. Os dentes se roçaram, as línguas não se encontraram e Ritinha estava com os lábios rachados e secos por conta da queimação no estômago. Os dois acharam uma delícia. A melhor coisa já acontecida em suas vidas. Mal podiam esperar para se beijar novamente.

Os rostos se distanciaram um pouco, os dois com sorrisos bobos e ainda sentindo o frio em suas colunas. Tudo era maravilhoso, cada sensação que o corpo tinha o direito de perceber fazia bem. Agrião olhou novamente nos olhos de Ritinha e não viu mais a lua. Estava tão emocionado que não percebeu a falta da bola amarela que tentava eclipsar a menina dos olhos de sua amada. A única coisa que conseguiu tirar o casal de seu transe foi o som. Era algo como uma ventania, mas sem o embaraço dos cabelos. Um sussurro talvez, caso os sussurros fossem altos. Era mais como uma multidão sendo ouvida de longe, a única diferença é que era apenas uma pessoa e ela estava logo atrás de Agrião.

Eles se viraram espantados. Em suas mentes, os mesmos pensamentos ocorriam ao mesmo tempo. Coisa de gente apaixonada. Seria o Padre? Seria o pai de Ritinha? Seria um lobisomem ou quaisquer outros desses demônios? Até o fim de suas vidas, Ritinha e Agrião nunca descobriram. A coisa grande, magra e branca pegou o menino. No mesmo instante seu corpo entrou em colapso. Urina e Fezes escorreram por suas pernas como a materialização do pavor. Ele foi pressionado na parede com força, alguns bons centímetros acima do chão. Pego pelo pescoço, pelos braços, pela barriga e pelo pênis. Por um instante a criatura grudou seu rosto no de Agrião, uma versão absurda do beijo que ele acabara de dar. O menino gritou de desespero quando a coisa afastou bruscamente o rosto, arrancando o pelo que unia as duas sobrancelhas de Agrião, deixando elas mortalmente separadas e com um ótimo acabamento. Ritinha estava em choque. Nem os sermões mais criativos do padre sobre as faces do diabo prepararam a menina para aquele momento.

A mente de Agrião girava. Perdida em algum lugar entre as químicas do amor e do espanto. Ouviu um barulho de coisas ocas caindo no chão. Não havia mais nada de racional nele que pudesse adivinhar que eram potes de plástico. Entre o turbilhão de pensamentos que lhe ocorriam, o de maior destaque era o que perguntava se Ritinha havia percebido que ele se cagou todo como uma criança. Acordou desse estado quando sentiu uma pasta fria sendo esfregada sobre o seu rosto. Parecia uma mistura de requeijão com areia e arranhava a sua pele. Algo brincava com os seus cabelos, arrancando-os e colocando-os em algum outro lugar da cabeça. Sua roupa foi rasgada em pedaços. Ao perder as calças, as fezes que nela habitavam voaram desordenadamente misturadas ao tergal surrado. Ao sentir o visgo quente com cheiro de madeira almiscara correr pelo rosto, Ritinha acordou. A cena que ela presenciava era pior que qualquer pesadelo. A coisa branca cheia de braços estava coberta pelo sangue de Agrião e agora socava impiedosamente a boca do rapaz com uma das mãos. Outra mão menor pegava os dentes que caiam e colocavam de volta na boca, enfiando os cacos nas gengivas do rapaz.

Ritinha não conseguiu gritar, não havia voz que pudesse sair de seu corpanzil. Na falta de qualquer coisa melhor para fazer ela correu. Nunca correu tão rápido em toda a sua vida. Na escola as meninas e meninos costumavam zombar dela pela falta de preparo físico. Ah, se eles a vissem agora. Uma perna depois da outra, largas coxas roçando a ponto da assadura. Ritinha corria, engasgava, ofegava e cuspia, sem nenhuma ordem em particular. Era tudo que o instinto havia reservado para ela. Achou melhor não fazer desfeita para o seu sistema nervoso, a mãe a havia criado com a melhor das educações. Conseguiu contornar a construção, não ouvia nenhum grito de Agrião ou barulho do monstro. Primeiro socou a porta da igreja, rezou pela vinda do padre. Depois esmurrou com toda a força de seus braços roliços a madeira da porta e implorou pela vinda de qualquer um. "Bata e a porta se abrirá", lembrou com um certo alento quando viu um tantinho de luz se formando pela fresta da porta que se abria. A pouca luz e a fresta se tornaram maiores e maiores devagar. Ela viu então os olhos do demônio. Quantos eram? Ela não conseguiu contar. Eram todos claros, disso ela tinha certeza. Tons de amarelo, azul, verde, cinza e violeta. Ela desmaiou.

A maior benção que Ritinha poderia desejar era continuar inconsciente, mas ela acabou acordando com o impacto. A primeira coisa que percebeu era um punho branco manchado de sangue indo contra seu rosto. Sentia o sangue escorrer pelo seu nariz e ele tinha o pior cheiro que Ritinha já havia sentido. Que saudades da madeira almiscarada. Após cada golpe outras mãos tocavam seu rosto e colocavam o nariz da menina para frente e para cima. Soco, dor, sangue, para frente e para cima, seguidas vezes. Ela chorava enquanto outras mãos pareciam massagear seus olhos, até que sentiu um corte na barriga e as lágrimas perderam todo o pouco sentido que tinham. Começou debaixo, na altura do ventre e subiu até o meio dos seios. Foi profundo o suficiente para ela sentir várias mãos penetrando seu abdômen. A última coisa que pensou foi em Agrião. Eles estavam nos fundos da igreja e ele penetrava nela com toda a força enquanto suava. Ela sentia o gosto salgado de cada gota que caia sobre seus lábios. Olhava para frente e via os bicos duros de seus seios e a curva grande de sua barriga, que Agrião usava de apoio para subir e descer rapidamente sobre ela. Foi passando esse pequeno filme em sua cabeça que ela se tocou enquanto esperava a hora de ir encontrar o menino.

A pequena vila acordou aos berros. Uma velha parteira foi a primeira a ver. Logo depois o padre, ainda em trajes de sono, correu para acudir, mas trocou um verbo por dois: ajoelhar e rezar. Não demorou muito para que todos estivessem de pé em frente à igreja. Chorando, gritando e perguntando porque. Nada é pior do que não saber explicar. Às vezes acontecem coisas que só podemos contemplar, pois não há conhecimento que possa encaixotar certos fatos dentro de uma gaiola do possível. Sorte de quem tem Deus no coração e encontra Nele todas as respostas, ainda que as mais cruéis. Mesmo em Deus, como explicar aquele casal pregado na porta da igreja? De braços dados, sorrindo tranqüilamente e tão diferentes do que eram? Não era importante o fato deles não estarem em casa quando deveriam, assim como importava apenas para o delegado quem foram os assassinos. Ninguém ia pensar nisso antes de conseguir entender o que se passou.

Agrião usava um Armani. Costurado sobre medida em seu corpo. Parecia mais alto e mais elegante. A postura curvada, fruto do trabalho catando o refugo das galinhas, havia se perdido. Seus cabelos estavam espetados, modelados com gel num corte muito interessante. Os dentes polidos e brancos exibiam um sorriso perfeito e a pele do rosto, rubra de sangue, estava lisa e bem barbeada. O pai de Agrião estava abraçado ao pai de Ritinha, que ainda não havia pronunciado uma palavra se quer e pouco mudava de expressão. Estava congelado, talvez imitando a filha. Ela usava um vestido de noiva tomara-que-caia, muito moderno, com a saia em formato de cone e um ótimo acabamento. Era em tons de marfim e pérolas com um brilho natural, tinha discretos bordados curvos em sour ton, muito delicados e cobertos de sangue. As costas nuas mostravam a pele e a ossatura de Ritinha, que estava com menos da metade de seu volume. O nariz apontava para o além com uma empáfia quase natural. Os olhos haviam recuado um pouco em seus espaços e exibiam uma coloração leitosa. Os cabelos haviam sido escovados e tingidos. Agora eram de um tom de vermelho muito bonito, pendendo em cachos volumosos que clareavam nas pontas. A maquiagem era sutil, servia para acentuar os sulcos presentes no rosto que fora redondo.

Havia algo de muito incômodo naquilo tudo. No meio do choro, uma atmosfera de rejeição tomava a platéia. Passado o susto e o horror inicial, foi percebido algo além da morte. Algo que vinha na forma discreta de uma atitude. Talvez fosse o sorriso debochado, a pose meio lânguida em que se encontravam. Eles pareciam superiores a todos os presentes, ainda que esfacelados. Havia um certo ar de ausência em suas expressões inchadas que não era a simples falta de vida, mas algo distante e despreocupado. Por mais que fosse culpa dos grampos e alfinetes, o que ninguém nunca comentou era que eles estavam bonitos. Belos como todos acreditavam que o amor deveria ser.

6 comentários:

Flavio Watson disse...

Ae rapaz!
Adorei!

Algo assim, Lygia Fagundes Telles Meets Clive Barker. : P

Muito muito bom.
Parabéns!

Wallace disse...

Muito bom hein?

Gostei mesmo dos elementos, os detalhes tão bem amarradinhos e sendo bem sincero, não faria nenhum aponte chato. São até desnecessários.

sblog disse...
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sblog disse...

Fodão Cara!

irmão disse...

Cirurgia plástica de alto impacto. Muito bom.

Crude disse...

Está excelentemente escrito.

Mas ainda vou levar um tempo entendendo porque eles foram mortos.
Não tenho muitas referências neste tipo de literatura.