5 de jun de 2007

O Dinossauro levantou a pata e a Mata

Em mais uma ousada atitude da indústria fonográfica, O novo álbum de Vanessa da Mata, "Sim", é lançado em duas versões: uma normal e a Zero. Esse tal CD Zero tem cinco das treze faixas presentes no álbum normal, embalagem simples, sem encarte e custa a bagatela de R$9,99.

A ação de propaganda criada pela Agencia3 dá o tom antipiratira do produto: "No Centro pelo preço da Uruguaiana", com direito a versões para Ipanema, Botafogo e outros bairros do Rio de Janeiro. Se você não é dessas bandas, então eu tenho que dizer que a Uruguaiana é o epicentro dos camelôs e da pirataria carioca.

Eu realmente me emociono ao ver o grande mastodonte da indústria musical tentar dar um longo e arrastado passo numa direção que ele não está acostumado a ir: atender ao consumidor. Devo dizer que esse passo ainda não acabou, está no meio do caminho e longe de chegar lá. Mas o dinossauro levantou a grossa e pesada perna. Para completar esse movimento, basta que as gravadoras (no caso, a Sony/BMG) entendam mais o seu público.

Primeiro é preciso entender que a precificação desse produto está errada. O que faz esse CD custar R$9,99 não é apenas o sua embalagem de cartolina, é a ausência de músicas. Se a idéia é combater a pirataria, como enfrentá-la com um produto de mesmo preço, mas de menor valor? Alguém que realmente queira o CD e não tenha melindres em relação ao consumo de pirataria, vai preferir a versão completa. De encarte, já se abriu mão há muito tempo.

Agora some isso à cultura já presente de baixar músicas na internet. Estou falando das pessoas que não consomem pirataria. Não pagam por ela e, por tanto, não alimentam nenhuma indústria criminosa. São usuários que vivem naquele ponto nebuloso da lei. Eles já abriram mão do encarte e da mídia física. Só baixam o que interessa e ainda podem se desfazer desse conteúdo apertando "del". Então? Quem sobrou para comprar o CD Zero?

Por que não fazer a versão Zero de um CD com todas as suas músicas e concorrer de igual para igual com a pirataria? A resposta é simples: custos autorais. O valor físico de um CD com uma música e outro com trinta é o mesmo. O processo de criar a matriz e prensar suas cópias não difere pela quantidade de micro perfurações no CD. O que se soma a esse custo bruto é o valor artístico do conteúdo.

Mas qual é o verdadeiro valor dessas músicas que estão "sobrando"? Lembre-se que as gravadoras têm modelos de contratos com músicos que exigem um número mínimo de faixas para se lançar um CD. Isso criou a cultura da "música de trabalho". As cinco faixas que realmente importam estão no CD Zero, que são as que vão tocar na rádio e "fazer a cabeça da galera". O restante serve apenas para cumprir tabela. Porém, fica claro que, na hora de dar o preço, são tão importantes quanto a "de trabalho".

Por outro lado, a pergunta correta não seria "por que as oito músicas que ficaram de fora do CD Zero?", mas sim "por que ela gravou essas músicas?". Foi contrato ou elas têm realmente conteúdo? Desta forma, o CD "normal" deveria existir? Quem começou a matar as gravadoras não foi a pirataria, foram as coletâneas, uma prática que tem tanto tempo quanto a própria indústria musical. Quem quer ouvir "o que toca na rádio", espera pela coletânea que logo será lançada, pois tem a percepção de que o valor individual de cada música é maior do que quando se compra o álbum completo de um artista. As coletâneas salvaram a vida financeira de muita gente, mas também abriram caminho para uma cultura onde o valor dado à música pelo consumidor é diretamente proporcional ao sucesso da mesma. Tudo isso é fruto da obrigação dada ao artista de criar música a granel para encher espaço, herança dos tempos do vinil, com formas e formatos mais rígidos. O mastodonte é que ainda não percebeu isso.

Álbuns de música deveriam sempre ser lançados em formatos menores. Quando o artista completar um grupo de músicas - indiferente de quantidade, qualidade é o foco - que realmente representam o trabalho dele, coloca-se o bloco na rua, seja em CDs ou venda on-line de músicas. Quando mais músicas estiverem prontas, o processo começa novamente. No fim de um ciclo de tempo indeterminado, somam-se as faixas e se lança uma edição de luxo, com encarte lindo, muito investimento em design e embalagens inovadoras que fiquem bonitas na estante. Esse seria o produto para fãs sinceros, que curtem a materialização da música na forma de um CD, que vai se transformar como produto até chegar a ser um item de adoração, decoração e colecionismo e não mais mídia. Música por música, eu pego ou compro na Internet, CDs devem conter algo além da música, mas nunca deixar de tê-las.

Os próximos são o Lobão e o Capital Inicial. Boa sorte para eles.

4 comentários:

lila de niterói disse...

quanta utopia, rom ~~=

lamps disse...

Esse rolo do cd zero foi anunciado há uns meses atrás, não foi? Usam-no com outras bandas gringas, coisa e tal.
Não me parece que vá adiantar muito, de qualquer jeito. Espero realmente que as gravadoras cheguem logo à falência, e os artistas liberem suas músicas. =D~~

Fabricio disse...

Sandinista! vibrations, vlw? :P

J@de disse...

Eu já comprei discos e amei do começo ao fim, particularmente eu os prefiro do que as coletâneas, por outro lado, também sou dessas que baixa o que interessa, nem põe em mídia. Esse post foi muito legal, porque é um absurdo o preço dos cds, tudo bem que há o preço do trabalho do artista, mas muito desse preço é griffe, é aí que a pirataria se dá bem, porque se as gravadoras baixassem o preço, venderiam muito mais e ganhariam o mesmo dinheiro no fim das contas. Na minha opinião um cd zero, prá competir com a pirataria tinha que vir naquele pacotinho mesmo sem nada mais!!
Mas o capitalismo também é meio burro.
Beijos!!