7 de out de 2007

Mas afinal, de onde é a Fernanda?

Hoje tomei contato com esse texto interessante e engraçadinho:


Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com um aspecto plural, com alguns anos bem vividos pelas preposições da vida.

E o artigo era bem definido, feminino, singular: era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal.

Era ingênua, silábica, um pouco átona, até ao contrário dele: um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanáticos por leituras e filmes ortográficos. O substantivo gostou dessa situação: os dois sozinhos, num lugar sem ninguém ver e ouvir. E sem perder essa oportunidade, começou a se insinuar, a perguntar, a conversar.

O artigo feminino deixou as reticências de lado, e permitiu esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro: ótimo, pensou o substantivo, mais um bom motivo para provocar alguns sinônimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeça a se movimentar: só que em vez de descer, sobe e pára justamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela em seu aposto.

Ligou o fonema, e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, bem suave e gostosa. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram conversando, sentados num vocativo, quando ele começou outra vez a se insinuar.

Ela foi deixando, ele foi usando seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo, todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo direto.

Começaram a se aproximar, ela tremendo de vocabulário, e ele sentindo seu ditongo crescente: se abraçaram, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula; ele não perdeu o ritmo e sugeriu uma ou outra soletrada em seu apóstrofo.

É claro que ela se deixou levar por essas palavras, estava totalmente oxítona às vontades dele, e foram para o comum de dois gêneros.

Ela totalmente voz passiva, ele voz ativa. Entre beijos, carícias, parônimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais: ficaram uns minutos nessa próclise, e ele, com todo o seu predicativo do objeto, ia tomando conta.

Estavam na posição de primeira e segunda pessoa do singular, ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisso a porta abriu repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo, e entrou dando conjunções e adjetivos nos dois, que se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tônica, ou melhor, subtônica, o verbo auxiliar diminuiu seus advérbios e declarou o seu particípio na história.

Os dois se olharam, e viram que isso era melhor do que uma metáfora por todo o edifício.

O verbo auxiliar se entusiasmou e mostrou o seu adjunto adnominal. Que loucura, minha gente. Aquilo não era nem comparativo: era um superlativo absoluto.

Foi se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado para seus objetos. Foi chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo, propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que as condições eram estas: enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria ao gerúndio do substantivo, e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.

O substantivo, vendo que poderia se transformar num artigo indefinido depois dessa, pensando em seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história: agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, jogou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva.


A primeira coisa a pensar é que as coisas são sempre novidade para alguém, pois mais abaixo vejo que esse texto tem pelo menos 2 anos. Frente a isso, lá vou eu tentar encontrar a sagrada fonte. Nas primeiras tacadas, vejo esse texto com seguinte apontamento:


Redação feita por uma aluna do curso de Letras, da UFPE Universidade Federal de Pernambuco - (Recife), que venceu um concurso interno promovido pelo professor titular da cadeira de Gramática Portuguesa.


Vejo essa chamada replicada diversas vezes na maioria dos blogs que compartilharam essa redação. Se volume fosse o legitimador da verdade, esta seria incontestável. Porém, a propaganda contra os blogs adoraria falar - e com muita razão até - de macacos usando copiar e colar como os grandes responsáveis pelo volume de desinformação que circula por aí.

Sendo um pouco insistente na pesquisa, acaba surgindo um nome: Fernanda Braga da Cruz. Cruzando as duas referências (o texto e a suposta autora) encontramos uma série de blogs e sites de Portugal que replicaram esse texto, só que com um apontamento um pouco diferente:


Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.


Porém, fora essa referência, o google nada mais trás sobre a Fernanda, de forma que só uma investigação de verdade (e não apenas um espertinho no computador as 4 da manhã) descobriria se ela realmente existe.

Ainda assim, fica o espanto e a suspeita sobre a nacionalidade do texto. Inclusive, em alguns blogs eu vi falarem da Universidade de Lisboa, mas não citavam a Fernanda. Se "antiguidade é posto", os portugueses são os donos, pois a publicação mais antiga que encontrei deles é de 2005. No Brasil (já falando da UFPE), o mais antigo que vi é de junho de 2006.

Não sei quem, mas alguém aí no meio tomou para si a nacionalidade do texto, recusando assumir que outro país lusófono além do seu possa fazer um texto interessante. Não quero fazer acusações, mas vivendo no Brasil sei que temos uma certa tradição em reapropriar e reautorar textos. Este mesmo você vai ver por aí com assinatura do Veríssimo. Sempre ele, esse gênio.

A única unanimidade, portanto, é que essa redação foi feita por uma mulher. Sempre elas, essas pervertidas.

3 comentários:

Bart Rabelo disse...

O texto é legalzinho, mas é igual "O Inferno É Endotérmico Ou Exotérmico?"... Todo mundo resolve se apossar dele, e muda a localidade do autor, sempre anônimo.

É por essas e outras que eu já recusei diversas vezes que pessoas aleatórias usem o "Contrato de Namoro" que postei no meu blog anos atrás. Eu tenho certeza que ele seria mutilado, dissecado, reinventado, e no fim das contas teria sido escrito por algum blogueiro do Piauí.

Crude disse...

Maldade sua roubar esse texto do Veríssimo. ^_^

Marcos disse...

Agora tenta encontrar o autor desse aqui Essa é a versão mais parecida com a primeira que eu li. Procurando por alemão e hotentotes você encontra algumas variações, mas a autoria continua sendo um mistério.