30 de nov de 2007

War in Rio é Arte

O que mais me impressiona no War in Rio não é o jogo em si, mas a forma com um erro de análise sobre o assunto vem sendo repetido. Vemos nos comentários dos leitores, dos jornalistas e das autoridades falácias como “Isso vai vender muito!”, “o cara vai ficar rico!”, “o cara só quer se auto promover”, que são acusações e adulações típicas de quem tem uma visão rasa sobre o assunto. Colabora com isso títulos de matérias completamente sempre propósito ou verdade como "Designer lança versão de War", usando uma construção que simula um lançamento de um produto real.

War in Rio dificilmente vai ser vendido algum dia e nem foi criado com esse propósito. Lembro de ter visto uma entrevista do site do Globo com o designer Fábio Lopez que começava com a pergunta “se não foi para vender por que você fez?”. A resposta do criador do jogo foi boa, mas não representou o espanto que uma pergunta como essa deveria causar. O que ela significa? Que todo e qualquer movimento na vida de uma pessoa deve ser uma busca por dinheiro? Repare que é essa a visão que tanto a turma do pró, quanto a do contra tem do jogo. War in Rio não é e nem pode ser um produto de prateleira, ele é tanto uma paródia da violência vivida no Rio de Janeiro quanto do jogo da GROW que, garanto, não vai cogitar licenciar a idéia.

Pensar nisso confunde a cabeça das pessoas e elas acabam, sem querer, repetindo a pergunta que tanto critico. Se War in Rio não é um produto, então é o que? O próprio criador do jogo respondeu essa pergunta em diferentes níveis, de diversas formas, mas ninguém entendeu ainda. Ele criou o jogo para jogar com os amigos e, achando sua idéia interessante (e claramente o é), resolveu colocar uma parte dela na internet junto a intenção de protesto. Aparentemente, essa simplicidade escapa as pessoas e às autoridades acaba representando um transtorno: como uma coisa tão simples pode fazer tanto barulho? A resposta é igualmente simples e já foi dada. Em algum comentário, em alguma das muitas matérias que surgiram sobre o assunto, um (raro) leitor iluminado falou: “War in Rio é arte e deveria ser exposto numa galeria para apreciação pública”. Achar que isso é tolice é um entendimento parcial do que é arte e, possivelmente, acreditar que não se pode produzir arte usando Design, ou então que arte tem que surgir de mentes torturadas e reclusas, ora indecifráveis, ora engajadas com grandes propósitos, ou, por fim, acreditar que arte e produto são categorias excludentes, de forma que nunca haverá algo de arte num produto ou um pouco de produto na arte. Poucas coisas podem ser mais inocentes do que isso. Prova disso é que a potência de War in Rio é ser um pouco produto, se tivesse ido direto para uma galeria e sempre tivesse se arrogado arte, ninguém daria atenção.

Espero não estar frustrando nenhum dos possíveis (muitos) compradores de War in Rio. Espero mais ainda que, frente a essa “triste verdade”, os consumidores não percam o interesse no objeto e passem a entendê-lo como mensagem e não algo a se obter. A viabilidade que espero para War in Rio é a distribuição de arquivos digitais para impressão, de forma que bastará uma impressora e alguma dedicação para se materializar uma idéia que tanto incomoda. Quantas idéias que incomodam têm essa chance? Nem vou mencionar a questão de War in Rio ser uma “piada de mau gosto”, pois sobre isso não há a menor dúvida: obviamente é uma piada de mau gosto, dessas que levam multidões à gargalhadas nervosas que estouram toda vez que se apertam grandes feridas.

5 comentários:

Jose Carlos disse...

Mandou bem.

O problema com iniciativas inteligentes como essa é justamente isso, elas normalmente não são bem compreendidas.

Flavio Watson disse...

Pra mim War in Rio é uma puta duma coincidência.
Meu primo desenvolveu há meses o WAR Proibidão, que não é pra me gabar dele não, mas é muito mais bonito e inteligente que o War In Rio. Ele não é só uma re-ambientação do jogo, mas sim um novo jogo, com regras novas e tal. Só que ele não teve coragem de divulgar, e aí ficou só na brincadeira com os amigos.

Defesa de parentes a parte, muito pertinete a sua crítica. E acrecento até mais um ponto nessa questão da finalidade das coisas: o jogo não é somente uma expressão de seu criador, talvez ele mesmo nem tenha percebido que criava uma ferramenta de contyestação, acredito que a finalidade per si foi apenas lúdica, fazer piada, de mal gosto sim. Mas como diz por aí, é brincando que se diz a verdade, né não?

Abração cara!

Fabio Lopez disse...

excelente seu texto.

se o manifesto não viesse travestido de entretenimento, não se espalharia como um vírus, e não teriam surgido tantos fóruns de discussão. é um manifesto dissimulado, tanto que muitos ainda escrevem perguntando onde encontrar pra vender.

"quanto mais você aprende, mais piada você faz..."

é um entretenimento que questiona a própria lógica do entretenimento.

além disso se utiliza de uma ferramenta simples de difusão, básica, democrática. e eu não fiz nada além de enviar a alguns amigos e pedir: espalhem.

ebola.

não quis chamar de arte pra não tornar o objeto blog arrogante, e pra não diminuir o papel do design como agente de transformação - no lugar apenas de um agente de embelezamento.

você deve imaginar que fui bastante editado pela imprensa, cujo principal objetivo era fazer e vender a polêmica. nas entrevistas queriam perguntar do jogo, das cartas, do tabuleiro.

não há jogo.

mas usei a mídia. usurpei seus minutos também. criei uma notícia, um furo hipermidiático, apresentando um objeto extremamente cínico, quase indecifrável.

criei um monstro (sem saber), soltei ele no mundo e o resto não fui eu quem fiz. eu sabia o que queria quando publiquei o blog, mas não imaginava a dimensão que a coisa teria e como controlar aquilo tudo.

quando a coisa apertou, coloquei o post 'apologia'.

eu teria comprado dois apartamentos se tivesse comercializado o jogo. em 3 dias. porque não fiz? por que foi o monstro que decidiu operar na sociedade dessa forma, repercutir dessa maneira. só não deixei ele me transformar num babaca.

ele andava sozinho mas me arrastava ao seu lado, pra explicar, justificar e proteger as pessoas daquela falsa novidade. estou tentando fazer isso nesses dias.

talvez seja mais forte que eu. estou pensando em matá-lo...

abs
Fabio Lopez

Rafael Velasquez disse...

achei um jogo bacana. compraria se estive no mercado.
Ora, esse blábláblá bacaca sobre o jogo é coisa de moralista-bagre.

Tsu disse...

Pois é, war é um jogo muito legal.
Adorei a forma que o artista encontrou para protestar contra a violência, uma verdadeira guerra no morro.