1 de fev de 2008

Protesto! O Kaka não é um nerd!

Segundo o jornalista Ricardo Kauffman, o jogador de futebol Kaká é o "rei dos nerds".

O apontamento que o jornalista faz em sua coluna, é relativo ao contraste que a figura do Kaká faz com o estereótipo do jogador de futebol brasileiro. De fato, o jogador do Milan está longe de ser preto, de origem pobre, que cresceu na vida com o esporte e, por isso, parece deselegante ou "sem costume" nas rodas sociais que passa a freqüentar. Além disso, Kaká é evangélico, afirma ter casado virgem e não se envolve em escândalos com louras, brigas e alcoolismo.

O problema da matéria não é relativo ao contraste da vida de Kaká com a de outros craques emblemáticos como Garrincha ou Pelé, mas sim achar que a opção de vida do jogador o faz um nerd. Aparentemente o jornalista usou um conceito particular sobre nerd que é completamente fora de sintonia.

Para Kauffman o nerd é uma figura pacata, simplória, quase um picolé de chuchu. Ele usa a referência do filme "a vingança dos nerds", mas ignora que os nerds do filme estão loucos atrás de sexo, diversão e drogas, sem abrir mão de ouvir DEVO e estudar física. A verdade é que Kaká é uma pessoa extremamente sem graça. Se não fosse um grande (e incontestável) gênio do futebol, ele passaria despercebido até na igreja que freqüenta. Até mesmo a beleza do rapaz é antes fruto do contraste com outros jogadores brasileiros do que uma beleza absoluta. Ser branco num mundo eurocêntrico significa muito.

Kaká não deixa de ser um nerd pelo que ele é, mas sim pelo que ele não é. Nerds podem jogar futebol, podem casar virgem (inclusive, desconfio que muitos o fazem), podem ser evangélicos, podem até mesmo ser bonitos, mas não podem, em nenhuma hipótese, se abster de referências pesadas de cultura pop e/ou ciência de ponta. Existem nerds que se drogam, que são agnósticos, ateus, libertinos, ocultistas e de outras muitas expressões. O que vai uni-los como um grupo caso observados de certo ângulo é a troca de referências, a compulsão por detalhes e saberes que os "não nerds" não se interessam ou simplesmente ignoram.

Me mostre a coleção de memorábilias de Star Wars de Kaká e ele será um nerd. Me mostre um código que ele tenha desenvolvido para calcular potência de lasers contra os escudos de força das naves em Star Trek e ele será um nerd. Me mostre os personagens de RPG que ele já fez e ele será um nerd. Me diz que o nick dele é Captain Tsubasa nos fóruns de anime e ele será um nerd (além de otaku). Posso citar inúmeros outros exemplos, mas sem eles, eu não o reconheço com tal.

Sei que não falo só por mim. Caso realmente exista, a comunidade nerd é pouco estruturada e muito diversa. Porém, existem alguns consensos a se observar. Para pertencer a uma subcultura, é necessário um autoreconhecimento e um reconhecimento do grupo. Acredito que o Kaká não se reconheça como um nerd, mas antes disso, posso garantir que o "grupo" não o reconhece como tal.

Por último, mas não menos importante: não existem nerds que ouçam Sandy & Junior.