10 de out de 2008

É um absurdo

É uma palhaçada.
Falta do que fazer.

É assim que vejo muitos se referindo à greve dos bancos. Como toda hora os bancos fazem greve, toda hora vejo e ouço isso.

Impressionante. Muitos realmente não se importam com as condições em que os bancários trabalham desde que continuem atendendo. Banco, água, luz, telefone, polícia são infraestrutura. Infraestrutura é aquilo que você só percebe que existe quando falta. Você não pensa sobre o processo exigido para que a água chegue na sua casa a menos que você dê a descarga e o amigo do último post não dê tchau.

Parece que os trabalhadores da infraestrutura têm obrigação de ser tão invisíveis quanto ela. Sempre que esses reclamam, acabam levando a culpa. É uma relação mais cruel do que a do senhor de escravos. Por pior que um senhor fosse, o escravo ainda era um sinal de status, precisava estar alimentado e disposto para trabalhar e, nessa formação unicamente brasileira, senhor e escravo ainda se relacionavam no melhor estilo casa grande - senzala. Só por que a maioria das pessoas trabalha em condições desumanas e não tem culhões ou organização para reclamar, aqueles que o fazem "não têm mais o que fazer". É, é um absurdo mesmo.

O "inimigo" se mantém invisível e risonho. Penso a mesma coisa quando vejo um ambulante de ônibus reclamando de um motorista e vice versa. Funciona assim: o ambulante, armado com o seu fantástico gancho de balas e paçocas, pede para o motorista para entrar pela frente. Se o motorista permitir, a câmera que tem dentro do ônibus vai registrar e ele pode perder o emprego por estar permitindo que alguém entre de graça na condução. Se o motorista de ônibus não permitir, o vendedor ambulante deixa de vender. Um odeia o outro. O vendedor vê o motorista como alguém que não o está permitindo trabalhar e o motorista vê o vendedor como alguém que está atrapalhando e ameaçando o seu trabalho.

No fim das contas, quem realmente gerou a falta de trabalho do ambulante e a vida coercitiva do motorista está, metaforicamente falando, vivendo algum conforto que nenhum dos dois personagens têm. Houve uma época em que se sonhava com a união do motorista e do ambulante. Achava-se de verdade que eles entenderiam que existe um inimigo em comum e manifesto num sistema desigual de classes sociais e que eles acabariam com tudo isso, formando uma nova sociedade.

Acabada a infância, todo mundo fica feliz quando todos os envolvidos esquecem a briga, abaixam as cabeças e continuam seus caminhos. O motorista dirigindo, o vendedor vendendo, o caixa do banco atendendo e assim por diante. Assim, ninguém sai ferido.

"ninguém mais aguenta tanta violência, não é mesmo, minha gente?"

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