26 de nov de 2008

Sobre como eu vejo as minhas notas na faculdade

O contexto é longo, mas eu vou encurtar.

Minha primeira experiência numa faculdade foi traumática. Juntou a bagunça do serviço público com minha irresponsabilidade adolescente e o resultado foi terrível. Abandonei a faculdade no quarto ano durante uma greve que já durava meses e fui trabalhar. Meu CR era algo como 4,5 devido as muitas matérias que abandonei e trabalhos ruins que entreguei.

Hoje, na minha segunda experiência num bacharelado, CR se tornou uma questão de honra. Pretendo me graduar mestre e doutor e mesmo sendo o CR nada determinante não quero que ele me falte na hora de um desempate. A partir disso, criei a minha interpretação do que querem os professores dizer ao dar notas para alunos num curso de Ciências Humanas. Segue:

Entre 0 e 5,5:
- Vai embora daqui, nunca mais quero ver você na vida.

Entre 6 e 7,5:
- Termine logo essa faculdade e suma.

Nota 8 (o CR de corte para alguns mestrados):
- Eu até aceito que você vire um acadêmico, mas não sou eu que vou ajudar você a chegar lá. Equivale a uma abstenção.

Entre 8,5 e 9,5:
- Eu quero que você vá para o mestrado, mas respeito os colegas que não concordarem com minha opinião.

Nota 10:
- Você pode ser útil para mim, tome esse biscoito.

25 de nov de 2008

Relativismo: até onde há ciência?



Palestrantes:
Prof.° Ms. José Colaço – Doutorando em Antropologia. PPGA/UFF.
Prof.° Ms. André Campos – Doutorando em Filosofia UFRJ.

Dia 28 de novembro, sexta-feira às 21h

Universidade Cândido Mendes

Auditório Darcy Ribeiro,
11° andar, Instituto de Humanidades Pio X.

Já tive aula com os dois palestrantes, os caras são feras.
Evidentemente as pessoas vão beber depois da palestra.

13 de nov de 2008

Jogador

Empurrou a torre preta para a fileira do rei. A outra cobria a fuga do monarca e ninguém lhe dava proteção.

- Xeque mate – disse com tédio.

- Ok, agora role o dado para ver quantas casas você vai andar – Falou o adversário, um sujeito muito sério.

- Como disse? – pensou.

Começou a perceber que havia algo errado. Teve certeza de que as coisas não estavam corretas quando seu adversário baixou dois pares, um de reis e outro de oitos e perguntou se ele tinha coisa melhor em mão.

Arrancou furiosamente o indutor de memórias da cabeça. Era um equipamento bobo, parecia uma aranha com patas finas de metal. No miolo, que ficava no topo da cabeça quando o equipamento era usado, tinha um pequeno disco com uma seqüência de pensamentos gravados. Devido ao seu preço baixo, era praticamente descartável. Jogou a aranha para um canto da sala onde se empilhavam várias delas e foi para a rua.

Ia reclamar com o camelô que o vendeu. Não suportava mais ser enganado. Isso é que dá comprar coisas de procedência duvidosa, sem nota fiscal e sem declaração direta com o imposto de renda. O risco de receber padrões de memória truncados que geram pensamentos desconexos era muito maior. Pelo menos os vendidos em lojas tinham o selo do órgão regulador das memórias, o Imemo.

Pegou um ônibus até o terceiro centro da cidade, onde ficava a maior concentração de comerciantes informais. Chegou e correu para debaixo do telhado que cobria o lugar, pois começava a chover. A telha era, na verdade, um emaranhado de fios que cobria alguns quilômetros quadrados de extensão. Graças a essa teia, nenhum equipamento de rastreamento fiscal funcionava no camelódromo.

Andou, dobrou esquinas, se espremeu em vielas, foi empurrado por uma comerciante gorda que arrastava duas araras de camisetas fora de moda e chegou ao setor de indutores de memória. Havia quase uma centena de vendedores, todos com suas aranhas de metal sobre placas de compensado ou papelão. O formato dos indutores era padronizado, mudavam apenas as células de gravação.

Qualquer um podia fazer um indutor de memória. A mídia era muito barata. A armação de plástico e metal leve custava poucos centavos se comprada em quantidade. O driver para gravar os discos podia ser baixado em diversos sites na Internet, assim como diversos conteúdos diferentes. Para gravar, bastava estar com uma aranha na cabeça e pensar as palavras-chave que iniciavam a gravação. A aranha registrava os impulsos elétricos correndo pelo cérebro nos seus mínimos detalhes. Depois era só pensar em desligar e pronto.

O único problema era a falta de compatibilidade entre os cérebros. Uma memória só era reproduzida da mesma forma no mesmo cérebro em que fora gravada, em qualquer outro apresentaria distorções e poderia perder totalmente o sentido. Porém, como tudo na vida, as pessoas se acostumaram a isso. Virou uma diversão a parte compartilhar impulsos cerebrais com amigos e experimentar sensações diferentes. Os resultados variavam bastante de cabeça para cabeça. Pessoas colecionavam as memórias com as quais tinham maior compatibilidade. Casais se apaixonaram e casaram por perceber que seus cérebros geravam memórias compatíveis. Outros se separaram pela mesma razão. Da mesma forma, alguns gostavam das distorções e buscavam com afinco pelas memórias que menos fizessem sentido em suas cabeças.

Todo esse risco não impediu que o comércio de memórias gravadas fosse um sucesso. Pelo contrário, o fator sorte desse jogo era a parte mais atraente dele. Celebridades vendiam suas memórias por verdadeiras fortunas antes que fossem pirateadas e estivessem de graça na Internet. Profissionais do sexo gravavam noites de luxúria e vendiam para os solitários. Claro que havia um mercado negro de memórias de assassinatos, estupros, crimes e tabus. Dizem que um homem em Sanaa, no Yemen, arrematou num site a memória de uma extirpação de clitóris e que não foi barato.

Ele só queria vencer um jogo. Toda a vida sempre gostara de jogar. Jogou cartas, jogou futebol, jogou jogos eletrônicos. Nunca foi particularmente bom nisso a ponto de conseguir um patrocínio ou, pelo menos, vender as próprias memórias de jogador. Pelo contrário, não conseguia se lembrar de já ter ganhado qualquer disputa em sua vida. Tinha que se contentar com um emprego simplório de analista de dados. Passava seus dias observando infinitas listagens atrás de informações que não estivessem em conformidade com um gigantesco livro de normas corporativas. Porém, um algoritmo trivial fazia a maior parte do trabalho, cabia a ele pressionar a tecla para ir para a próxima linha e deixar o programa fazer o resto.

Nas últimas semanas havia gasto algum dinheiro em indutores de memória. Comprara a memória de um tenista que vencera o grand slam uns anos antes e tudo que conseguira ver foi o céu azul com algumas bolas amarelas. Depois foi a memória de um estrategista de guerra que havia vencido um programa de computador que emulava com perfeição os movimentos e ações da última pequena grande guerra. Não conseguiu sentir nada além de uns poucos calafrios e o cheiro de grama molhada. A mais terrível foi a memória de um campeão de ginástica olímpica. Por três dias ele ficou preso num mesmo movimento circular sobre o cavalo. Como o cérebro se deixa enganar pelas memórias - e qual seria a graça se ele não se enganasse? -, a quantidade de ácido lático que se acumulou em seus braços quase os levou a gangrena. Se ele ainda consegue apertar teclas em seu trabalho é graças às novas tecnologias de reconstrução celular.

Não podia desistir. Todos se divertiam muito com as memórias induzidas, por que ele não? O que havia de errado com ele para ter tanto azar em conseguir memórias compatíveis? Bem que os neurologistas que havia visitado apontavam para as peculiaridades de seu sistema nervoso. Diziam que a mesma dificuldade que tinha para jogos também era responsável pela profunda rejeição por memórias induzidas. Mas ele não podia simplesmente aceitar isso. Sabia que se perseverasse encontraria pelo menos uma memória que lhe coubesse e viveria feliz para sempre ao lado dela.

Encontrou o vendedor com a qual comprara a memória de um gênio enxadrista. Reclamou, brigou, pediu o dinheiro de volta, se indignou. O vendedor se aborreceu muito com a sua presença. Brigou também, garantiu a qualidade de seus produtos, falou de outros clientes que compraram a memória do enxadrista e se divertiram muito, exigiu respeito pelo seu trabalho. Os dois não conseguiam chegar num acordo. Juntou gente para ver o bate boca. Uns e outros começaram a gravar suas memórias no caso de sair uma boa briga dali.

Outro vendedor, um baixo de cabeça branca, pegou no braço do comprador enraivecido e o levou para longe. Pediu para que se acalmasse, falou mal do colega vendedor, disse que era pilantra e que vendia a memória das próprias filhas sendo forçadas ao sexo. Ele se acalmou, respirou fundo e falou um pouco do seu problema. O bom vendedor lhe garantiu ter o produto perfeito, a memória de um verdadeiro campeão de tudo que se pode imaginar nessa vida. Foi caro, mas ele levou. No ônibus, ficou na ânsia de chegar logo em casa e provar sua nova memória. Era um sábado e estava só, poderia curtir a vontade sem se preocupar com trabalho no dia seguinte.

Chegou a sua casa, colocou uma roupa confortável e sentou-se na sala. Pegou a aranha de metal e a deslizou pela cabeça adentro. A sensação era sempre gostosa, uma massagem suave e refrescante. Passou o dedo pelo topo cilíndrico da aranha e ligou o produto. Fechou os olhos e buscou relaxar.

Viu-se num lugar muito luxuoso, as paredes eram vermelhas e aveludadas. Na mesa plástica e moderna a sua frente, copos de bebida e algumas notas de dinheiro. Sabia que era dinheiro australiano mesmo nunca tendo visto dinheiro australiano na vida. Uma coisa interessante das memórias é que você não precisa saber para sentir que sabe. Uma morena linda chegou sorrindo para ele. Estava de jeans, usava um top florido e justo, brincos enormes de prata e um batom estampado que combinava com a blusa. Trocaram um beijo e ela saiu. Ficou espantado com a qualidade da memória, nunca sentira nada tão vivo, úmido e bonito. Era um vencedor com certeza, mas ainda estava procurando saber qual era o jogo.

Tomou um gole de sua bebida. Era amarga e com sabor de coisa cara, delícia de gente fina. Se tivesse controle sobre o que estava vivendo, teria tomado mais um gole e teria ido atrás da morena de lábios coloridos. Viu chegar dois outros caras. Roupas excelentes e sorrisos simpáticos. Abraçaram-se com o vigor de uma boa amizade masculina, conversaram um pouco e riram muito. As vozes estavam distorcidas e o idioma era desconhecido, como o entendimento vinha por símbolos não sentia muito falta.

Viu que falavam de praias, mulheres e armas. O outro falou de algo que poderia ser um barco ou um par de peitos. Talvez um barco com um par de peitos, o que fosse melhor, pois tudo remetia ao prazer. Então surgiu a idéia do jogo e todos trocaram olhares desafiadores. Isso o excitou sobremaneira, era agora que iria ganhar alguma coisa e seria no melhor ambiente possível. Estava pensando no que eles jogariam quando um dos caras, de terno vermelho e gravata de papel, puxou uma arma e a pôs sobre a mesa. Todos explodiram em gargalhadas, talvez fossem atirar nos vitrais que decoravam a sala onde estavam. Ganharia aquele que acertasse entre os olhos das sereias bregas.

O outro cara, um loiro de olhos cinza e dentes de cerâmica polida, pegou a arma e apontou para a própria cabeça. Apertou o gatilho e ouviu-se um clique. Todos gargalharam novamente e ele entendeu o que estava para acontecer. Ficou em pânico, precisava sair dali, desligar o indutor de qualquer jeito. Seu corpo se sentia bêbado e não respondia como devia. Acariciou a face, mas não alcançou o botão de desligar. O cara que sacou a pistola a pegou e colocou na boca, apontando direto para o fundo da cabeça. Tentou lembrar a seqüência de palavras-chave padrão que desligava aparelhos indutores de memória. Lembrou, pensou e o aparelho não desligou, vai ver era de um fabricante que tinha uma senha padrão diferente. O cara com a arma na boca apertou o gatilho e nada aconteceu. Todos gargalharam e deram um gole em suas bebidas.

Ele então lembrou que era um vencedor. Nesse momento, relaxou. Não precisava se preocupar com nada. Era um jogo perigoso, de fato, mas havia comprado a memória de quem havia ganhado. Agora era só esperar para ver qual dos dois iria cair, ou se os dois cairiam. Riu sozinho dos dentes de porcelana quebrados e da gravata de papel suja de sangue. Resolveu parar de se adiantar e se concentrou no espetáculo das memórias. Viu pegar a arma e limpá-la com um guardanapo. Jogou uma piadinha para os amigos e riu. Sentiu o cano quente na testa. Afastou um pouco a arma para que não lhe queimasse a pele. Puxou o gatilho.

Infelizmente para ele, o vendedor de indutores de memória tinha uma visão muito própria sobre o que era ganhar no jogo da vida. Talvez fosse indiano e fizesse parte de alguma seita maluca para qual a morte é só uma passagem. Talvez, indiano ou não, realmente acreditasse que a morte era o momento máximo da vida e que do outro lado havia algo de muito bom. Vai ver era do tipo de gente que acha que só existe a morte e nada mais nesses tempos difíceis. Ou então estivesse apenas de saco cheio daquele filho da puta gritando com todo mundo e quisesse dar um fim naquilo de uma vez por todas. Vá saber?

Sono

Tinha medo de atravessar aquela rua. Sonhara na noite anterior com um carro cinza que a surpreendia e a levava para um lugar muito mais distante do que os três ou quatro metros pelos quais fora arrastada. Sendo assim, preferiu a passarela.

Lá de cima, enquanto tentava controlar o pânico de altura com um exercício simples de respiração, ouviu os gritos. Se agarrou na bolsa de couro de um senhor que andava a sua frente para não perder o frágil equilíbrio. O homem virou-se preparado para dar um murro em quem ele pensava ser um assaltante. Vendo a moça pálida e trôpega, a amparou.

Olharam para baixo e viram a mulher atropelada. A vítima fora arrastada por uns três ou quatro metros, mas o carro azul a havia levado para algum lugar muito mais distante. Não teve dúvida, estava vendo a si mesma morta. Espectadora do próprio sonho que se realiza. Olhou para o homem que a segurava e viu o próprio pai.

Acordou de repente, suando e com gosto ruim na boca. Olhou para o relógio ao lado que marcava umas quatro e pouca da manhã. Ao lado, a foto do pai morto num acidente de trânsito. Fora arrastado por uns três ou quatro metros, mas o carro marrom o levou para algum lugar ainda mais distante.

Primeiro se perguntou de quantos sonhos ainda acordaria até chegar na realidade. Depois se perguntou como a realidade seria. Nunca descobriu nenhuma das duas coisas.