13 de nov de 2008

Sono

Tinha medo de atravessar aquela rua. Sonhara na noite anterior com um carro cinza que a surpreendia e a levava para um lugar muito mais distante do que os três ou quatro metros pelos quais fora arrastada. Sendo assim, preferiu a passarela.

Lá de cima, enquanto tentava controlar o pânico de altura com um exercício simples de respiração, ouviu os gritos. Se agarrou na bolsa de couro de um senhor que andava a sua frente para não perder o frágil equilíbrio. O homem virou-se preparado para dar um murro em quem ele pensava ser um assaltante. Vendo a moça pálida e trôpega, a amparou.

Olharam para baixo e viram a mulher atropelada. A vítima fora arrastada por uns três ou quatro metros, mas o carro azul a havia levado para algum lugar muito mais distante. Não teve dúvida, estava vendo a si mesma morta. Espectadora do próprio sonho que se realiza. Olhou para o homem que a segurava e viu o próprio pai.

Acordou de repente, suando e com gosto ruim na boca. Olhou para o relógio ao lado que marcava umas quatro e pouca da manhã. Ao lado, a foto do pai morto num acidente de trânsito. Fora arrastado por uns três ou quatro metros, mas o carro marrom o levou para algum lugar ainda mais distante.

Primeiro se perguntou de quantos sonhos ainda acordaria até chegar na realidade. Depois se perguntou como a realidade seria. Nunca descobriu nenhuma das duas coisas.

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