28 de jan de 2009

Fossa das Marianas

Existem dias em que tudo que se quer é um tiro na cabeça ou uma massagem tailandesa. Qualquer coisa que cesse o tédio do caminho entre o nascimento e a morte. A ironia é que, contra esse vazio, tanto vale a filosofia quanto uma partida ruim de futebol. Aliás, futebol ruim era justamente o que Carlos estava assistindo enquanto desejava uma massagem tailandesa ou um tiro na cabeça.

- Gooooool do Nova Marianas! Cinco a três no placar!

Carlos ficou olhando o jogador correr de braços abertos. Todas as câmeras deram close na marca do patrocinador do gol que apareceu na camisa do goleador. Leite de Soja Translícia. Na blusa, a marca animada dançava de um lado para o outro e no fim dava um gole gostoso na bebida.

- Ok, me dê uma. - Disse Carlos com sede.
- Por favor, repita o pedido. - Respondeu a gravação com voz de mulher de sucesso.
- Translícia de pêssego.

Na tela, piscou um valor e em seguida a confirmação da compra. Carlos não tinha muito dinheiro e estava desempregado, mas nada como um comercial para nos fazer salivar ao som de um sino.

Bastava agora esperar a entrega. Esses anúncios só aparecem quando há uma unidade móvel de distribuição a postos para atender os pedidos de uma região. Não demorou mais do que dez minutos para que a campanhinha tocasse. Na TV, um quadrado se abriu mostrando a imagem da câmera da porta. Uma morena linda de cabelos anelados e olhos negros aguardava. Estava usando uniforme da Translícia e tinha uma embalagem Tetrapac nas mãos. Carlos foi até a porta e abriu.

Ela entrou com força. Com a arma apontada para a testa de Carlos chutou a porta. Carlos foi ao chão junto com a embalagem Tetrapac. Graças à resistência da embalagem, o chão não ficou sujo de leite de soja. Graças à resistência da cabeça de Carlos, o chão não ficou sujo de sangue.

- Um tiro na cabeça ou uma massagem tailandesa! Escolha! - Gritou a modelo com fúria enquanto segurava Carlos pela gola da camisa e o sacudia de um lado para o outro.

Carlos estava em choque. Ouviu alguém gritar "gol".

- Se você não escolher terei que escolher para você! Eu só tenho duas opções! Quer arriscar? - A morena pressionava o cano da arma na bochecha de Carlos, quase arrancando sua barba por fazer.

Carlos olhou para os olhos amendoados da mulher e não viu muita coisa além de si mesmo apavorado. Desceu um pouco o olhar e viu o seio da morena pelo seu uniforme entreaberto. A cada movimento dela novas partes ficavam a mostra e outras se escondiam. Na soma das visões parciais, Carlos descobriu que eram rijos, de tamanho médio e com uma cor maravilhosa. Os bicos estavam duros, cercados pelas aureolas escuras e tensas. Apontavam para fora e para o alto como gênios na idade das trevas.

- Massagem tailandesa... - Balbuciou.

A entregadora de leite de soja o virou de bruços. Carlos estava de cara no chão e seus dentes doeram quando arrastados no carpete. Sentada em suas costas, mantendo a arma em sua nuca, a morena arrancou a blusa que ele usava com apenas uma mão. Ela era forte. Carlos sentiu que ela poderia arremessá-lo pela janela sem problemas. Quer dizer, ela teria que primeiro arrumar uma janela naquele apartamento suboceânico.

Carlos pensou na sua vida, mas isso nem levou tanto tempo assim. Rapidamente: havia sido criado alguns níveis acima de onde estava, mas depois que seus pais resolveram aplicar suas aposentadorias em cassinos da superfície, a família acabou desmoronando. Ele passou a viver de empregos temporários e recebeu uma moradia popular recém construída nos níveis mais baixos do complexo. Não era muita coisa na vida e nem desejava ser. Não faria diferente se tivesse oportunidade. Da mesmo forma, nunca questionaria sua mais recente escolha.

Os bicos dos seios roçaram devagar em suas costas nuas. Carlos sentia as duas pontas abrindo caminho pela umidade do seu suor, deixando para trás uma fileira arrepiada de pequenos pelos finos. Ele gemeu quando ela pressionou o peito contra seus omoplatas. Ela sabia o que estava fazendo, pensou Carlos. A pressão foi a ideal para produzir pequenos estalos de relaxamento na coluna. Ele já ia esquecendo a arma contra sua cabeça quando ela sussurrou em seu ouvido:

- Não quer o seu tiro agora? - Disse com voz molhada.

Carlos viria a classificar esse momento como dissonância cognitiva, pois, como contou várias vezes aos amigos, seu corpo enviava uma mensagem e sua mente outra. Seu saco inchou de tesão, sua espinha gelou com o perigo. Lá naquela parte do cérebro onde não somos mais do que lagartos, havia o impulso de dizer sim para tudo. Porém...

- Não, obrigado. - Conseguiu responder com educação. "Gol", ouviu da TV.

A morena se levantou e foi embora. Carlos ainda teve tempo de vê-la de costas. Um belo quadril de macacão laranja e verde, cor da Translícia.

Ficou deitado no carpete olhando para a porta aberta. Pensou se ela não voltaria e faria outras loucuras com ele. Pensou melhor e decidiu que talvez fosse arriscado. Pensou mais uma vez e considerou que o risco valeria a pena. Entretanto, ao invés da morena de seios duros e bunda generosa, entrou um cara alto de uniforme.

- Boa tarde Senhor Carlos. Você acabou de ser atendido pelo novo serviço de entregas RlyWant e gostaríamos de saber sua opinião.

- Como é? - Perguntou Carlos. Considerando a presença do sujeito ainda mais estranha que a visita anterior.

- Pois não, Senhor Carlos. Nosso serviço funciona da seguinte forma. Quando sua TV emite o sinal da compra, a unidade de distribuição manda um micro-pulso eletromagnético na direção do comprador. O retorno dessa informação é uma fotografia do seu estado mental. Nossos processadores traduzem esse estado mental numa lista de desejos. Nesse momento, nossas UNAs, as unidades autômatas, procuram atender os desejos do comprador junto com a entrega do produto. Agregamos valor a marca dos produtos entregues com desejos atendidos.

- Una. Então é esse o nome dela, não é?

- Sim, ela é uma Una, Senhor Carlos. E então, como o senhor classificaria o atendimento? Excelente, bom, regular, ruim ou péssimo?

- Bem... O leite acabou caindo no chão. Talvez as Unas pudessem ser mais cuidadosas.

O pesquisador olhou o Translícia caído no chão, tirou uma foto com seu computador de mão e anexou um comentário.

- Entendo, posso registrar isso como um bom, certo? Afinal, a embalagem é resistente e não fez nenhuma sujeira. Você se importa se eu fotografar o seu estado mental para complementar a pesquisa, Senhor Carlos?

- Não. Acho que não. Vocês já fizeram isso antes mesmo.

O pesquisador apontou seu computador de mão na direção de Carlos e apertou uma tecla. Voltou a olhar a tela e disse:

- Aqui diz que você deseja que a Una volte, o que é ótimo. Também diz que não deseja morrer, mas nosso algoritmo exclui essa opção. As pessoas pensam em não morrer o tempo todo no fim das contas. Muito obrigado, Senhor Carlos. Como agradecimento pela sua participação em nossa pesquisa, você receberá uma caixa com doze unidades de Leite de Soja Translícia gratuitamente.

- Será uma Una a fazer a entrega? - Perguntou Carlos, já de pé e buscando uma outra blusa para vestir.

- Pouco provável, Senhor Carlos. Se aprovadas, as Unas e os receptadores de desejos vão operar nos níveis superiores. Tenha uma boa tarde. - Saiu.

Carlos sentou-se no sofá. O time de Nova Marianas havia tomado dois gols nesse meio tempo e o jogo estava empatado. Abriu a embalagem de Translícia e bebeu. Esse é o problema em morar nos níveis mais baixos do complexo, pensou. Nos usam de cobaia para qualquer coisa.

5 de jan de 2009

Sobre os estudantes de humanidades

Fechando minha trilogia de posts sobre a faculdade (fruto do meu descontentamento por ter que ficar um período fora), demonstro agora os três grupos de estudantes de humanidades, sua relação com o conhecimento e uns com os outros.

O primeiro grupo são os Pedantes. Eles realmente se importam com a faculdade e com as matérias. Se deixam contaminar pelo ambiente acadêmico e tentam ao máximo agir como se fizessem parte de uma academia de verdade. O segundo grupo é a Galera. A galera está ali por que esse lance de ciências sociais é muito bacana. Eles até estudam e podem até ter boas notas. Não fazem mal a ninguém. O terceiro e último grupo são os Niilistas. Eles não são felizes e o conhecimento os tornam cada vez mais tristes, pois revela a mediocridade humana.

Os Pedantes em relação aos outros:
Galera - Eles são esforçados, não é? Só têm uma certa dificuldade na manipulação dos conceitos.
Niilistas - Suas análises são interessantes, mas sua postura não ajuda muito na construção conhecimento.

A Galera em relação aos outros:
Pedantes - Cara, senta perto dele antes da prova, ele explica a matéria direitinho!
Niilistas - Pô, nada a ver essas coisas que o cara fala, acho mó onda errada.

Os Niilistas em relação aos outros:
Pedantes - idiotas.
Galera - idiotas.

Bom ano novo para todo mundo.